Quem é Yewá?
Yewá, também grafada como Ewá ou Iewá, é uma das orixás femininas mais enigmáticas e menos conhecidas do panteão iorubá cultuado no Brasil. É a orixá do sexto sentido e da vidência, tendo uma presença mais forte e tradicional no Candomblé do que na Umbanda. Seu domínio está ligado à neblina, aos nevoeiros e a tudo aquilo que ainda não foi desvendado ou explorado pelo homem.
Sua origem, assim como a de tantos outros orixás, está profundamente ligada a um curso d'água na África: sua principal força é originária da Nigéria, onde há um rio com seu nome. Em terras africanas, o local privilegiado de sua adoração é na cidade de Idogo, próxima a Ilaro, na região de Egbado — sendo que o próprio povo Yewa, dessa área, adotou o nome da divindade para si.
Yewá é, sobretudo, a guardiã da pureza e da virgindade — mas não apenas no sentido físico. Por ter se conservado casta, acabou se tornando protetora de tudo aquilo que é considerado virgem e puro, desde o que diz respeito ao ser humano até as florestas e rios intocados. Ela representa, portanto, tudo o que ainda é inexplorado: a mata virgem, os rios e lagos onde não se pode nadar ou navegar, e as moças que escolheram preservar sua pureza.
Por trás dessa aparência delicada, porém, esconde-se uma força considerável: ela é bastante esperta e não é aconselhável despertar sua ira, pois se acredita que quem a desafia torna-se perdido na vida, sem nunca mais conseguir encontrar seu caminho.
Origem e Genealogia
A genealogia de Yewá é relativamente consensual entre as diferentes fontes e tradições: ela é filha de Oxalá e Nanã, sendo irmã de Oxumaré e Obaluaiê (Omolu). Algumas tradições jeje, no entanto, apresentam variações interessantes sobre sua origem mais profunda: haveria quem diga que Yewá seria a ressignificação de Dan (o orixá arco-íris) ou uma de suas metades, sendo a outra metade Oxumaré — o que reforça ainda mais o vínculo simbólico entre os dois irmãos.
Sua relação com Oxumaré é uma das mais marcantes de sua mitologia. Muitas vezes ela é confundida com seu irmão, já que os dois são responsáveis pela energia do arco-íris, sendo por essa razão costumeiramente cultuados juntos, e ambos compartilham a serpente como símbolo, embora a de Yewá apareça em menor proporção.
Uma característica ritual muito particular a diferencia da maioria das demais orixás: a tradição também mostra que Yewá se apresenta apenas para filhos de santo do sexo feminino, não incorporando em homens.
Itans de Yewá
Itan 1 — O Amor Proibido por Xangô e a Ira de Oyá
Este é o itan mais difundido sobre Yewá, presente em praticamente todas as tradições. Segundo a narrativa mais comum, Yewá era uma bela virgem que entregou seu corpo jovem a Xangô, marido de Oyá (Iansã), despertando a ira da rainha dos raios. Temendo a vingança da esposa traída, a jovem orixá não teve escolha a não ser fugir: com receio da vingança de Iansã, ela se refugiou na parte mais profunda e nunca explorada das matas de Oxóssi, que a recebeu de braços abertos.
Esse refúgio transformou profundamente a natureza de Yewá: sob a proteção de Oxóssi, ela se tornou guerreira valente e caçadora habilidosa, e teria conseguido, com sua astúcia, frustrar a vingança de Oyá, afastando de si a morte certa. É por essa razão mítica que, até hoje, Yewá costuma ficar em regiões afastadas e de mata densa, evitando o contato direto com Xangô e também com Ifá, o orixá da adivinhação — pois ali, longe deles, ela sente a verdadeira paz.
Itan 2 — Yewá e os Panos Brancos no Rio
Um segundo itan, mais simples, mas igualmente significativo, associa Yewá diretamente à origem de uma de suas restrições alimentares mais conhecidas. Segundo essa história, em uma tarde ensolarada, Yewá foi até o rio lavar seus panos brancos (alás) acompanhada de suas serviçais, quando, de repente, surgiu uma galinha que começou a ciscar a terra, sujando suas cestas e panos com terra e sujeira. Indignada com o ocorrido, a orixá jamais esqueceu o incidente — e é por isso que, até os dias de hoje, Yewá não aceita galinha em suas oferendas, preferindo outras aves em seu culto.
Itan 3 — A Recusa ao Casamento e a Intervenção de Oxumaré
Um terceiro itan explica por que Yewá jamais se casou, apesar do desejo de sua própria mãe. Contam as lendas que sua mãe Nanã ansiava profundamente que a filha casasse, porém a jovem orixá preferia se concentrar em proteger sua pureza e se manter livre de laços matrimoniais. Foi então que seu irmão Oxumaré interveio para ajudá-la a escapar dessa pressão familiar, levando Yewá para o final do arco-íris, onde os dois passaram a viver juntos por muito tempo. É por causa dessa história que Ewá e Oxumaré são considerados, até hoje, a própria energia do arco-íris, e a orixá passou a ser chamada também de Ewá Fagemi, "Senhora do Arco-Íris".
Itan 4 — A Que Enganou a Morte
Há ainda um itan recorrente, presente em diversas tradições orais, que reforça o caráter singular de Yewá diante da finitude da vida: contam as lendas que a orixá já enganou a morte diversas vezes, e por esse motivo não sente temor algum diante dela. Essa característica, somada à sua ligação com neblinas e nevoeiros, fez com que muitos acreditassem que ela habitaria também regiões de cemitério, locais onde, segundo a tradição, ela consegue se manter afastada tanto de Xangô quanto de Ifá — os dois orixás que, cada um a seu modo, romperam ou desafiaram sua condição de virgem intocável.
Ferramentas e Símbolos de Yewá
As ferramentas de Yewá remetem à sua dupla natureza — guerreira e mística — e variam ligeiramente entre as fontes.
- Ofá (arco e flecha) — usado tanto na guerra quanto na caça, reforçando sua fase de guerreira formada nas matas de Oxóssi
- Arpão — outro instrumento de caça associado à sua trajetória entre os caçadores
- Lira — um símbolo mais raro entre os orixás, ligado à sua sensibilidade artística e mística
- Cobra (Ejô) — elemento que a conecta diretamente ao irmão Oxumaré e à energia do arco-íris
- Espelho e leque — em algumas tradições, representações de sua introspecção e visão espiritual
Cores de Yewá
As cores de Yewá variam consideravelmente entre as diferentes tradições e casas de Candomblé, o que reflete o próprio mistério que envolve essa orixá pouco documentada:
- Rosa e branco — associadas à beleza, pureza e espiritualidade da divindade em algumas tradições contemporâneas
- Coral, rosa e vermelho vivo — uma combinação de tons femininos frequentemente citada como suas cores principais
- Vermelho e amarelo (ou laranja) — em tradições mais próximas do fundamento nagô, suas cores de contas são o vermelho e dourado
- Vermelho e branco — também aparece como combinação representativa em algumas tradições
Essa variação de cores é um reflexo direto da raridade de seu culto: por ser cultuada de forma restrita e com rituais complexos, o conhecimento sobre seus fundamentos específicos muitas vezes não foi transmitido de forma uniforme entre as casas de Candomblé.
Dia da Semana e Saudação
Dia da semana: há variação entre as fontes, sendo o sábado e a terça-feira os dias mais frequentemente citados para o culto a Yewá, dependendo da tradição e da nação seguida.
Saudação: a mais difundida e reconhecida é "Ri Rô Ewá!", uma expressão de reverência que, segundo a tradição, significa algo como "doce e branda Ewá".
Sincretismo Católico
O sincretismo de Yewá é um dos pontos de maior controvérsia entre as diferentes casas religiosas, havendo múltiplas associações possíveis:
- Santa Luzia — a associação mais difundida e aceita atualmente. Ewá é sincretizada com Santa Luzia por conta de seu poder de vidência, sendo esta última conhecida como a padroeira dos olhos — ambas comemoradas no mesmo dia, 13 de dezembro, e ambas escolheram não se casar
- Nossa Senhora das Neves — outra associação registrada em algumas tradições
- Santa Bernadete — em algumas casas específicas, a data de 18 de fevereiro é reservada para o culto a Ewá
Essa variedade de associações reforça o quanto o culto a Yewá permanece pouco padronizado no Brasil, sendo em muitos casos confundido ou substituído pelos rituais de outras orixás, como Oxum e Oyá.
Oferendas e Restrições Alimentares
As oferendas para Yewá seguem um padrão relacionado à sua pureza e à sua ligação com as águas e as matas. Por dividir espaço com as demais divindades femininas das águas, suas oferendas costumam ser colocadas próximo ou nos locais onde estão Iemanjá e Oxum, sempre nas matas próximas às águas.
- Batata-doce — um dos alimentos mais citados em oferendas contemporâneas
- Água mineral — a bebida mais associada ao seu culto, reforçando sua ligação com a pureza
- Velas branca e vermelha — cruzadas, em suas oferendas
- Plantas e ervas — cana-do-brejo, barba-de-são-pedro e alface-d'água (esta última conhecida como "erva de Santa Luzia")
Uma das restrições mais conhecidas sobre a orixá é a sua rejeição à galinha como oferenda, uma quizila que remonta diretamente ao itan do incidente à beira do rio. Por se tratar de uma orixá de culto raro e complexo, qualquer oferenda ou obrigação a Yewá deve ser feita exclusivamente sob orientação direta de sacerdotes e sacerdotisas experientes.
Cantigas e Orações para Yewá
As cantigas e orações dedicadas a Yewá são raras e pouco difundidas fora dos terreiros que efetivamente cultuam essa orixá, refletindo a exclusividade de seu culto.
Cantiga 1: Iyewa Iyewa Ma Ajo
Iyewa Iyewa Ma Ajo
Iyewa Iyewa
Iyewa Iyewa Ma Ajo
Iyewa Iyewa
Ma O Ma O Lese
Iyewa Iyewa Ma Ajo
Iyewa Iyewa
Cantiga tradicional do candomblé Ketu que saúda Yewá em seu nome sagrado. "Iyewa" é uma variação de Yewá, e "Ma Ajo" remete ao seu poder de caminhar entre os mundos visível e invisível.
Cantiga 2: Iyewa Ni Fa Toto Lo Bewa E
Iyewa Ni Fa Toto Lo Bewa E
Olu Aiye Iyewa Ni Fa Toto Lo Bewa E
Olu Aiye
O Iyaba E
Iyewa Ni Fa Toto Lo Bewa E
O Iyaba E
Esta cantiga louva Yewá como a grande senhora do mistério. "Olu Aiye" significa "senhor do mundo" e "Iyaba" é um tratamento respeitoso para as Orixás femininas.
Nota: As cantigas aqui reproduzidas fazem parte da tradição oral do Candomblé Ketu. A entonação, o ritmo e o contexto ritual são fundamentais para o correto uso litúrgico. Estas letras são oferecidas para estudo e conhecimento da tradição.
Características das Filhas de Yewá
Como Yewá se manifesta exclusivamente em mulheres, suas características de personalidade são sempre descritas no feminino, refletindo a dualidade que marca profundamente essa orixá.
As filhas de Yewá são pessoas de beleza exótica, que se diferenciam das demais justamente por essa característica, possuindo tendência a uma marcante duplicidade de comportamento — em algumas ocasiões podem ser bastante simpáticas, enquanto em outras se tornam extremamente arrogantes.
Um traço curioso de sua personalidade é a aparência ambígua diante do tempo: às vezes aparentam ser bem mais velhas, outras vezes parecem meninas, moças ingênuas e puras — um reflexo direto de sua natureza ligada às transformações e aos horizontes indefinidos.
As filhas de Yewá possuem grande capacidade de lidar com espíritos, além de uma sensibilidade e preocupação genuína com o bem-estar das pessoas que amam. Herdando o próprio caráter mítico da orixá, essas mulheres tendem a ser quietas e isoladas, voltadas para o conhecimento dos segredos das transformações, preferindo muitas vezes a introspecção ao convívio social intenso.
Ri Rô Ewá!
Yewá é, sem dúvida, uma das figuras mais misteriosas e menos compreendidas do panteão afro-brasileiro — a guardiã da pureza e da virgindade, a senhora das neblinas e nevoeiros, a orixá dos horizontes e das transformações e uma das poucas divindades que se manifesta exclusivamente em mulheres.
Sua trajetória mítica, marcada pela fuga, pela transformação em guerreira sob a proteção de Oxóssi e pelo domínio sobre os mistérios ainda inexplorados da existência, faz dela um símbolo raro de autonomia feminina e resistência diante das pressões externas — sejam elas amorosas, familiares ou sociais.
Seja através do ofá e do arpão de sua fase guerreira, das cores rosa e vermelho, das ervas ligadas a Santa Luzia ou das raras orações que pedem que ela "dissipe as nuvens dos meus caminhos", Yewá permanece como um dos orixás mais fascinantes justamente por seu mistério — um convite constante à humildade de quem estuda os orixás, reconhecendo que nem tudo pode, ou deve, ser completamente desvendado.
Ri Rô Ewá!