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Yemanjá (Iemanjá)

A Rainha do Mar, Mãe de Todos os Orixás: Odoyá!

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Yemanjá, Rainha do Mar

Iemanjá é um orixá feminino das religiões Candomblé e Umbanda. O seu nome tem origem nos termos do idioma Iorubá "Yèyé omo ejá", que significa "mãe cujos filhos são como peixes". É considerada a mãe de todos os adultos e a mãe dos orixás. Iemanjá está associada aos rios e suas desembocaduras, à fertilidade das mulheres, à maternidade e principalmente ao processo de criação do mundo e da continuidade da vida.

Seu culto original a associa ao plantio e colheita dos inhames e coleta dos peixes, donde seu nome Yemojá (Yeye Omo Ejá), Mãe dos filhos peixes, divindade regente da pesca. Com origem às margens do rio Yemonja, na Nigéria, a divindade recebeu o título de deusa dos mares quando chegou em terras brasileiras com seus filhos. Iemanjá, na verdade, é a divindade do rio que deságua no mar. Ela é filha de Olokun, o orixá rei dos oceanos.

No Brasil, a deusa Iemanjá recebe diferentes nomes, dentre eles: Dandalunda, Inaé, Ísis, Janaína, Marabô, Maria, Mucunã, Princesa de Aiocá, Princesa do Mar, Rainha do Mar, Sereia do Mar.

No Ilê Àsé Oni Èwé Ossayn Atin L'Oyá, Yemanjá ocupa um lugar de honra como a grande mãe que abençoa as águas, protege a família e rege os ciclos da vida e da fertilidade.

Características de Iemanjá

Dia da semana: Sábado. Cores: Azul claro, branco, prateado e verde-água. O branco representa a pureza e a espuma do mar; o azul claro remete à imensidão do oceano; o prateado simboliza o brilho da lua sobre as ondas; o verde evoca as profundezas marinhas. Elemento: Água salgada do mar. Domínios: Inteligência, maternidade, saúde mental e psicológica. Símbolo: Abebé prateado, alfange. Número: 8 e seus múltiplos. Saudação: Odoiá, Odó-Iyá, Erù-Iyá.

Iemanjá representa o poder progenitor feminino, a maternidade universal, a Mãe do Mundo. Ela não é a sereia grega nem a virgem imaculada: é guerreira, parideira, responsável, junto com Oxalá, pela criação dos seres humanos. Ligada às águas salgadas, à maternidade e à proteção da família, simboliza cuidado, acolhimento, sensibilidade e também força emocional.

Os filhos de Iemanjá são pessoas maternais, protetoras, que gostam de cuidar dos outros. São emotivos, por vezes possessivos, e possuem grande intuição. Quando irritados, podem ser como o mar revolto: implacáveis e destruidores. Porém, quando calmos, são acolhedores como as ondas suaves que abraçam a areia.

No sincretismo católico, Iemanjá é associada a Nossa Senhora da Glória (RJ), Nossa Senhora dos Navegantes (RS e BA) e Nossa Senhora da Conceição (SP). É padroeira dos pescadores. Sua homenagem principal é em 2 de fevereiro, além de 15 de agosto, 8 de dezembro e 31 de dezembro.

Os Símbolos e Instrumentos de Iemanjá

Iemanjá é representada por símbolos que refletem sua vaidade, seu poder e sua ligação com as águas.

Abebé — O Leque-Espelho

Um leque chamado abebé contendo uma sereia é o principal símbolo de Iemanjá. O abebé é um leque circular feito de metal prateado (prata, alpaca ou latão prateado), geralmente adornado com a imagem de uma sereia ou de um peixe. Representa a vaidade de Iemanjá, sua beleza e seu domínio sobre as águas. Através do espelho do abebé, Iemanjá contempla sua beleza e também observa o destino de seus filhos.

Alfange (Espada)

O alfange também é um símbolo de Iemanjá. A espada curva representa seu lado guerreiro. Em alguns mitos, Iemanjá teria sido mulher de Ogum, acompanhando-o em suas campanhas de guerra com porte do facão (obé).

Outros Símbolos

  • Âncora: representa a segurança e a proteção dos navegantes
  • Conchas e pedras marinhas: representam os tesouros do fundo do mar e a riqueza espiritual
  • Estrela-do-mar: símbolo de orientação e guia nas águas
  • Pente de prata: ligado à vaidade e ao cuidado com a aparência
  • Coroa prateada: símbolo de sua realeza como Rainha do Mar
  • Peixes: seus filhos simbólicos, representando a fecundidade
  • Lua Crescente: Yemanjá é considerada a deusa lunar, regendo os ciclos da natureza

As Histórias Sagradas de Iemanjá

Itan: A Origem de Iemanjá e o Nascimento dos Orixás

Com o casamento de Obatalá, o Céu, com Odudua, a Terra, que se iniciam as peripécias dos deuses africanos. Dessa união nasceram Aganju, a Terra, e Iemanjá (yeye ma ajá = mãe cujos filhos são peixes), a Água. Como em outras antigas mitologias, a terra e a água se unem. Iemanjá desposa o seu irmão Aganju e tem um filho, Orungã. Orungã, o Édipo africano, apaixona-se por sua mãe, que procura fugir de seus ímpetos arrebatados.

Conta-se que, em sua fuga desesperada, Iemanjá caiu por terra e de seus seios imensos brotaram dois rios caudalosos que correram para o mar. De seu ventre aberto nasceram os orixás: Dadá, Xangô, Ogum, Olossá, Olokun, Oxóssi, Oju Orô, Oxum, Obá, Okô, Nanã, Ibeji, Obaluaê, Ossaim — formando assim o panteão iorubá.

Itan: A Poção de Olokun e a Fuga de Iemanjá

Algumas lendas dizem que Iemanjá era filha de Olokun, soberano do mar. Como presente, Olokun deu para Iemanjá uma poção que a ajudasse a fugir de qualquer perigo e a aconselhou a usar somente quando realmente precisasse. Iemanjá guardou a poção com carinho e seguiu com a sua vida até o seu primeiro casamento. Casou-se com Oduduá e teve dez filhos orixás, ficando conhecida como mãe de todos os orixás.

Iemanjá acabou por se casar com Okerê, rei de Xaki. Certo dia, ele a humilhou zombando de seus grandes seios. Enfurecida, Iemanjá fugiu. Durante a perseguição, tropeçou e caiu, e o vidrinho com a poção, que carregava desde a infância, quebrou e se transformou em um turbulento rio que a levou para o oceano. Okerê tentou impedir a fuga transformando-se em uma grande colina, mas Iemanjá pediu ajuda ao seu filho Xangô, que lançou um raio sobre a barreira, partindo a montanha ao meio. Assim, o rio conseguiu passar e finalmente chegar ao mar, que até hoje é o lar de Iemanjá.

Itan: Iemanjá Conquista o Poder Sobre as Cabeças (Ori)

Yemanjá trabalhava e reclamava de sua condição de menos favorecida, afinal, todos os outros deuses recebiam oferendas e homenagens e ela vivia como escrava. Durante muito tempo Yemanjá reclamou dessa condição e tanto falou, nos ouvidos de Oxalá, que este enlouqueceu. O ori (cabeça) de Oxalá não suportou os reclamos de Yemanjá. Oxalá ficou enfermo, Yemanjá deu-se conta do mal que fizera ao marido e, em poucos dias, curou Oxalá. Oxalá agradecido foi a Olodumaré pedir para que deixasse a Iemanjá o poder de cuidar de todas as cabeças. Desde então Iemanjá recebe oferendas e é homenageada quando se faz o bori (ritual propiciatório à cabeça) e demais ritos à cabeça.

Itan: A Origem do Gueledé

O fruto do segundo parto de Iemanjá era uma menina, apelidada de "Guelede" porque ela era obesa como sua mãe. Também como sua mãe, Guelede adorava dançar. Depois de terem se casado, nem Guelede ou a parceira de Efe podiam ter filhos. O Oráculo de Ifá sugeriu que tentassem o mesmo ritual que tinha funcionado com Iemanjá. Tão prontamente Efé e Guelede realizaram esta dança ritualística — com imagens de madeira em suas cabeças e tornozeleiras de metal sobre seus pés — eles começaram a ter filhos. Esses rituais desenvolvidos no Guelede de dança mascarada foram perpetuados pelos descendentes de Efe e Guelede.

Itan: Iemanjá Cria os Rios e os Mares

A lenda tem um simbolismo muito significativo, contando que da reunião de Obatalá e Odudua (fundaram o Aiê, o mundo em forma), surgiu uma poderosa energia, ligada desde o princípio ao elemento líquido, conhecida pelo nome de Iemanjá. Durante os milhões de anos que se seguiram, antigas e novas divindades foram unindo-se à famosa Orixá das águas, como foi o caso de Omolu, que era filho de Nanã, mas foi criado por Iemanjá. Antes disso, Iemanjá dedicava-se à criação de peixes e ornamentos aquáticos, vivendo em um rio que levava seu nome e banhava as terras da nação de Egbá.

Itan: Iemanjá e Ogum — O Casamento Guerreiro

Em alguns mitos, Iemanjá teria sido mulher de Ogum, acompanhando-o em suas inúmeras campanhas de guerra com porte do facão (obé), mas insatisfeita com seu casamento com o orixá da guerra quis livrar-se dele. Iemanjá era uma guerreira ao lado de Ogum, mas não se conformava com a vida de batalhas incessantes. O amor entre eles era forte, porém a natureza maternal de Iemanjá pedia paz, acolhimento e proteção. Esse conflito fez com que os caminhos se separassem, e Iemanjá seguiu para as águas, onde encontrou a plenitude de sua essência.

Iemanjá e a Cabeça (Ori) — A Senhora do Bori

Um dos aspectos mais profundos de Iemanjá é sua relação com o Ori, a cabeça. Yemanjá, por presidir à formação da individualidade, está presente em todos os rituais, especialmente o Bori (ritual propiciatório à cabeça).

O itan conta que Yemanjá trabalhava e reclamava de sua condição de menos favorecida. Todos os outros deuses recebiam oferendas e ela vivia como escrava. Tanto falou, nos ouvidos de Oxalá, que este enlouqueceu. O ori de Oxalá não suportou seus reclamos. Yemanjá deu-se conta do mal que fizera e, em poucos dias, curou Oxalá. Agradecido, Oxalá foi a Olodumaré pedir que deixasse a Iemanjá o poder de cuidar de todas as cabeças. Desde então Iemanjá recebe oferendas quando se faz o bori e demais ritos à cabeça.

As Cantigas de Yemanjá

As cantigas de Iemanjá possuem uma cadência que imita o ir e vir das ondas: são fluidas, ondulantes e envolventes. Todas as suas saudações, orikís e cantigas remetem a essa origem: "Odó Iyà" significa "mãe do rio"; já a saudação "Erù Iyà" faz alusão às espumas formadas do encontro das águas do rio com as águas do mar. Os filhos-de-santo dançam com movimentos dos braços que simulam ondas, mãos que cortam a água, e o corpo que balança como o mar.

Cantiga 1: Odoyá

Odoyá, odoyá
Odoyá, odoyá
Yemanjá, odoyá
Odoyá, odoyá

Cantiga fundamental e mais conhecida do candomblé Ketu para saudar Yemanjá. "Odoyá" é uma contração de "Odó Iyá", que significa "Mãe do Rio". O canto é entoado em todas as rodas de xirê e nas festas em homenagem à rainha do mar.

Cantiga 2: Yemanjá O, Yemanjá

Yemanjá o, Yemanjá
Yemanjá o, Yemanjá
E nijé nilé lodô
Yemanjá o, Yemanjá

Esta cantiga louva Yemanjá em sua morada nas águas. "E nijé nilé lodô" refere-se a Yemanjá em sua casa no rio que corre para o mar. O cântico evoca a conexão entre as águas doces e salgadas, lembrando que Yemanjá reina sobre todas as águas.

Cantiga 3: Agbé Okuntá

Agbé okuntá odé irè sá iyá oyò
Agbé okuntá odé irè sá iyá oyò
Yemanjá, agbé okuntá
Odé irè sá iyá oyò

Cantiga que exalta Yemanjá como protetora e guia. "Agbé" remete à sua coroa real, "okuntá" ao mar profundo. A música celebra a autoridade de Yemanjá sobre os mares e sua generosidade em proteger e guiar seus filhos nas águas da vida.

Nota: As cantigas aqui reproduzidas fazem parte da tradição oral do Candomblé Ketu. A entonação, o ritmo e o contexto ritual são fundamentais para o correto uso litúrgico. Estas letras são oferecidas para estudo e conhecimento da tradição.

Oferendas a Iemanjá

As oferendas a Iemanjá devem ser entregues na praia, na beira do mar. Tradicionalmente, os presentes são colocados em cestas enfeitadas ou pequenos barquinhos e enviados ao mar. Os que não afundam ou que são devolvidos à praia são tidos como rejeitados pela deusa. Hoje, recomenda-se que apenas materiais biodegradáveis sejam enviados ao mar.

Comidas Rituais

  • Ebô de Iemanjá: milho branco cozido, sem sal
  • Manjar branco: feito com leite de coco e maisena
  • Arroz-doce: cozido com leite de coco
  • Canjica branca: sem sal, com leite de coco
  • Acaçá: bolinho de milho branco enrolado em folha de bananeira
  • Peixe do mar: cozido ou assado, sem pimenta

Use ingredientes brancos: arroz, canjica, leite de coco, camarão seco. Não coloque sal em pratos rituais como o arroz-doce e o ebô. Sirva os pratos frios, nunca quentes, em louça branca. Decore com flores brancas como rosas ou lírios.

Flores e Presentes

  • Rosas brancas e lírios
  • Espelhos, pentes e bijuterias prateadas
  • Perfumes e sabonetes finos
  • Velas azuis e brancas
  • Champanhe branca

As Qualidades (Caminhos) de Iemanjá

Diz-se na Bahia que há sete Yemanjás. São 16 as qualidades ou caminhos do Orixá Yemanjá. As principais qualidades incluem:

  • Yemanjá Assabá (Sobá) — a mais velha, manca de uma perna, rabugenta e feiticeira. Comanda as caçadas mais profundas do oceano, tem afinidade com Nanã. Veste branco
  • Yemanjá Akurá — vive nas espumas do mar, vestida com lodo do mar e coberta de algas marinhas
  • Yemanjá Ogunté — mulher de Ogum, guerreira e determinada
  • Yemanjá Olossá — ligada às lagoas e águas paradas
  • Yemanjá Sessu — a Iemanjá das ondas, brava e sensual
  • Yemanjá Ataramawê — a mais bela e vaidosa, ligada à superfície brilhante do mar
  • Yemanjá Ayio — ligada ao luar sobre as águas

Iemanjá na Relação com Outros Orixás

Iemanjá e Oxalá: No Brasil, Iemanjá é considerada esposa de Oxalá, formando o casal primordial. Ele, o criador da forma; ela, a mãe que dá vida e movimento.

Iemanjá e Oxum: Iemanjá é a água salgada, Oxum é a água doce. Mãe e filha nas águas, representam a totalidade do elemento líquido no mundo.

Iemanjá e Obaluaê/Omolu: Omolu era filho de Nanã, mas foi criado por Iemanjá. Nanã, ao ver o filho coberto de chagas, o abandonou nas águas. Iemanjá o recolheu, cuidou de suas feridas e o criou como filho.

Iemanjá e Xangô: Iemanjá pediu ajuda a seu filho Xangô, que usou seu poder e com um raio partiu a montanha ao meio, demonstrando a lealdade que une os dois.

Iemanjá e Ogum: Iemanjá teria sido mulher de Ogum, acompanhando-o em suas campanhas de guerra.

Iemanjá e Nanã: Nanã é a lama primordial; Iemanjá, a água que dá vida. Juntas, representam a dualidade da criação: o barro e a água, a morte e o renascimento.

A Dança de Iemanjá

A dança de Iemanjá no Candomblé imita os movimentos das ondas do mar. Os braços se abrem e se fecham como ondas que chegam à praia e recuam. O corpo ondula suavemente, num vaivém que lembra o mar calmo. Quando a dança se intensifica, os movimentos tornam-se mais amplos e poderosos, como uma tempestade marítima. A iaô (iniciada) dança segurando o abebé, que reflete a luz e brilha como a superfície do mar sob o sol.

Odoyá, Iemanjá!

"Odoyá! Odó Iyá Yemanjá!" (Salve a Mãe do Rio!). "Erù Iyá!" (Salve a espuma da Mãe!). Essas saudações são entoadas com devoção toda vez que Iemanjá é invocada, seja nos rituais dentro do terreiro, seja nas oferendas à beira-mar.

Embora existam muitas lendas diversificadas acerca de Iemanjá, dois fatos sempre permanecem: a sua relação com as águas primordiais da Terra e o seu poder gerador e criador. Em suma, ela é a poderosa senhora das águas da Terra e a mãe de todos os viventes, a grande mãe iorubá. No Brasil, considerada o orixá mais popular, festejado com festas públicas, desenvolveu profunda influência na cultura popular, música, literatura e na religião.

Iemanjá é a mãe que nunca abandona, a onda que acolhe, a maré que leva e traz, o sal que cura, a espuma que embala. É a profundeza e a superfície, o silêncio do fundo do mar e o rugido das ondas na tempestade. Mãe de todos os orixás, mãe de todos os seres humanos, ela nos lembra de que viemos da água e à água retornaremos. Cada vez que o mar bate na areia, é Iemanjá que nos abraça.

Odoyá, Iemanjá!

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