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Iansã (Oyá)

A Senhora dos Ventos, dos Raios e dos Eguns: Eparrei Oyá!

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Iansã, Orixá dos Ventos e Tempestades

Iansã (Oyá, Yánsàn, Ìyamsesàn, Matamba, Bamburucema) é a deusa dos ventos e das tempestades, uma das mais poderosas e respeitadas orixás do panteão africano. Ela é a divindade que controla os ventos, as chuvas e o movimento das tempestades, simbolizando a transformação e a mudança. Forte, destemida e guerreira, Iansã é uma orixá de grande energia e coragem, conhecida por sua independência e capacidade de enfrentar qualquer desafio.

O maior e mais importante rio da Nigéria chama-se Níger, imponente, que atravessa todo o país. Rasgado, espalha-se pelas principais cidades através de seus afluentes. Por esse motivo tornou-se conhecido como Odò Oya, já que ya, em iorubá, significa rasgar, espalhar. Esse rio é a morada da mulher mais poderosa da África negra, a mãe dos nove orum, dos nove filhos, do rio de nove braços — Ìyá Mésàn, Iansã.

Embora seja saudada como a deusa do rio Níger, está relacionada com o elemento fogo. Na verdade, indica a união de elementos contraditórios, pois nasce da água e do fogo, da tempestade, de um raio que corta o céu no meio de uma chuva. É a filha do fogo, Omo Iná.

O nome Iansã trata-se de um título que Oyá recebeu de Xangô, que faz referência ao entardecer: "a mãe do céu rosado" ou "a mãe do entardecer". Era como ele a chamava, pois dizia que ela era radiante como o entardecer.

No Ilê Àsé Oni Èwé Ossayn Atin L'Oyá, Oyá ocupa lugar de honra como patrona ao lado de Ossayn, pois foi ela quem espalhou as folhas sagradas com seus ventos, permitindo que todos os Orixás tivessem acesso ao poder das ervas.

Características de Iansã

Dia da semana: Quarta-feira. Cores: Vermelho e amarelo, além de marrom, rosa e branco. Na Nação Ketu, Iansã é fortemente associada ao vermelho e marrom. Elemento: Fogo e Ar (ventos). Domínios: Tempestades, ventanias, raios, morte. Metal: Cobre. Pedras: Quartzo rosa, jade, citrino e ágata de fogo. Número: 9 e seus múltiplos. Saudação: Eparrei Oyá!

Iansã é definida como uma linda mulher negra, com traços fortes e corpo torneado, sua pele lembra a cor do barro vermelho, de cabelos curtos. Carrega em sua mão direita o alfange (adaga) e na esquerda o Eruexim (rabo de cavalo), com que afasta os maus espíritos e ajuda na transição do nosso mundo ao mundo dos mortos. É protetora dos búfalos e borboletas.

Iansã é a força dos ventos, dos furacões, das brisas que acalmam, das coisas que passam como o vento, dos amores efêmeros e sensuais, das tempestades que assolam a existência, mas não duram para sempre. No sincretismo católico, Iansã é associada a Santa Bárbara, celebrada em 4 de dezembro, santa protetora contra raios e tempestades.

Os filhos de Oyá refletem sua personalidade: são pessoas de um calmo como uma brisa, mas quando estão furiosas, são tempestade. São como o vento, não gostam de ser trancados em um só lugar, facilmente cansados da vida monótona. Nos relacionamentos, são extremamente fiéis, mas em outros casos dados a aventuras. Em todos os casos, são muito ciumentos.

Os Símbolos e Instrumentos de Iansã

Iansã é representada por símbolos que remetem à sua força guerreira e ao seu domínio sobre os ventos e os mortos. Suas ferramentas carregam o axé da transformação e da coragem.

Eruexim (Irukerê)

Na mão esquerda, Iansã carrega o Eruexim, também chamado Irukerê, um instrumento feito de rabo de boi ou cavalo. É um símbolo de nobreza, muito usado na África para espantar moscas. Com ele, Iansã direciona os eguns, os espíritos dos mortos, e afasta os maus espíritos.

Espada e Alfange

Símbolo de sua natureza guerreira, a espada de cobre ou alfange (adaga) é carregada na mão direita. Com ela, Iansã divide seus inimigos em nove partes e corta tudo o que precisa ser transformado.

Outros Símbolos

Seus atributos incluem:

  • 9 alças de cobre
  • Vagens de flamboyant
  • Iruka (rabo de cavalo)
  • Espadas, escudos, coroas e lenços de 9 cores diferentes (exceto preto)
  • Raios e coriscos — representam seu poder sobre as tempestades e o fogo celeste
  • Chifres de búfalo — representam sua capacidade de se transformar em búfalo
  • Borboleta — símbolo da transformação e da liberdade

As Histórias Sagradas de Iansã

Itan: Oyá, a Mulher-Búfalo

Diz o mito que Iansã era tão linda que, para fugir ao assédio masculino, vestia-se com uma pele de búfalo e saía para a guerra. Algumas passagens da história de Iansã relacionam-na com antigos cultos agrários africanos ligados à fecundidade, e é por isso que a menção aos chifres de novilho ou búfalo surgem sempre nas suas histórias. Iansã é a única que pode segurar os chifres de um búfalo, pois essa mulher cheia de encantos foi capaz de transformar-se em búfalo e tornar-se mulher da guerra e da caça. Um dos mitos mais conhecidos conta como Iansã ajudou Xangô a escapar de seus inimigos, transformando-se em um búfalo para protegê-lo. Essa história exemplifica a lealdade e a coragem de Iansã, bem como a confiança que Xangô depositava nela.

Itan: Oyá aprende com Obaluaê e recebe o poder sobre os Eguns

Inhansã, inquieta, aproximou-se de Omolú e o convidou para dançar. Inhansã dançou tão rápido que o vento proporcionado por seus giros levantou a roupa de Omolú que, para surpresa de todos, era um homem de extrema beleza. O reconhecimento e admiração de todos por Omolú o deixou muito feliz, pois anteriormente era muito desprezado. Por gratidão a Inhansã, Omolú ofertou-lhe parte de seu poder, dando a Iansã a capacidade de conduzir os eguns dançando com seu irukerê. E Inhansã tornou-se assim mais poderosa e adorada.

Itan: Oyá e o nascimento do Axexê

Quando a morte levou seu pai, Oyá ficou muito triste. Para homenageá-lo, reuniu seus instrumentos, enrolou-os em um pano, preparou suas comidas preferidas e dançou e cantou por sete dias, espalhando por toda parte, com seu vento, o seu canto. Na sétima noite, acompanhada dos caçadores da região, embrenhou-se na mata e depositou ao pé de uma árvore sagrada os pertences de seu pai. Olodumarê, emocionado com seu gesto, deu-lhe o poder de ser a guia dos mortos no caminho do Orum. Desde então, todo aquele que morre tem seu espírito levado por Oyá. Antes, porém, deve ser homenageado por seus entes queridos, numa festa com comidas, cantos e danças. Nasceu assim o ritual funerário do Axexê.

Itan: Os nove filhos de Oyá e Egungun

Oyá não podia ter filhos e foi buscar o conselho de um babalawô. Xangô a tomou e deste ato nasceram nove filhos, onde oito deles eram mudos. Oyá procurou novamente o babalawô, que recomendou oferendas, e assim ela fez. Tempos depois nasceu mais um filho que não era mudo, mas tinha uma voz estranha, rouca, profunda e cavernosa. Esse filho se chamava Egungun, o antepassado que fundou cada família. Hoje, quando Egungun volta para dançar entre seus descendentes, somente diante de Oyá, sua mãe, Egungun se curva.

Itan: Oyá e Xangô — o Amor Verdadeiro

Partiu Oyá para o reino de Xangô. Lá, acreditava, teria o mais vaidoso dos reis e aprenderia a viver ricamente. Mas, ao chegar ao reino do deus do trovão, Iansã aprendeu muito mais que isso: aprendeu a amar verdadeiramente e com uma paixão violenta, pois Xangô dividiu com ela os poderes do raio e deu a ela o seu coração. O fogo é o elemento básico de Iansã. O fogo das paixões, o fogo da alegria, o fogo que queima.

Oyá e os Mortos — A Senhora dos Eguns

Um dos aspectos mais intrigantes de Iansã é sua relação com os Eguns, os espíritos ancestrais. Ela é a única orixá que domina o portal entre o mundo dos vivos e dos mortos. Segundo a mitologia, ela recebeu esse poder em uma jornada à terra dos mortos, onde aprendeu a controlar os Eguns com o uso do eruexim.

Oyá-Iansã é a transportadora dos espíritos humanos após a morte. Ela os leva do Aiyê (terra) para o Orum (céu, mundo dos encantados). Oyá é o orixá que deu "roupa" aos egunguns para que eles pudessem andar entre os seres vivos e fossem vistos por estes, e por estes fossem cultuados.

As Cantigas de Iansã

As cantigas são chamadas de Orin e fazem parte do xirê (sequência litúrgica de cantos e danças). Existem diversas maneiras de se conversar com seu orixá: um oriki (saudação), orin (cantigas ou músicas), oferendas (adimú, obrigação), adura (rezas ou invocações). Nas cantigas, Oyá é saudada como "aquela que agita os ventos".

Alguns trechos de cantigas conhecidas de Oyá na nação Ketu:

Cantiga 1: Ajé Mito Ti Oyá

Ajé mito ti Yao
Ajé mito ti Oya
Aé aé aé
Ajé mito ti Oya
Aé aé aé
Ajé mito ti Oya

Cantiga vibrante do candomblé Ketu que exalta o nome de Oyá em refrão, saudando a iniciada (yao) e a guerreira dos ventos. O coro responde com "aé aé aé", típico da energia veloz e festiva de Iansã.

Cantiga 2: Oyá Koro Un Le, O Guerê Gue

Oyá koro un le, o guerê gue
Sábà koro un lá, o gará ga
Omo obiri s'ala koro un le
Dà ni ìyá pá tá lodo ìyá
E L'oyá kobé lá jo è L'oyá
Ágé mito di ìyàwó
Òrìsà eréwe rè
Ágé mito e L'oyá
Oya oya oro vodun jẹ

Esta cantiga louva Iansã como a Orixá-mulher guerreira. "Obiri" significa mulher e "ìyá" significa mãe, reforçando sua força feminina. "Ìyàwó" remete à iniciada. O cântico conecta Oyá ao movimento dos ventos e à força dos Voduns/Orixás.

Nota: As cantigas aqui reproduzidas fazem parte da tradição oral do Candomblé Ketu. A entonação, o ritmo e o contexto ritual são fundamentais para o correto uso litúrgico. Estas letras são oferecidas para estudo e conhecimento da tradição.

Oferendas a Iansã

As oferendas a Iansã são feitas em lugares abertos, como campos e montanhas, onde o vento corre livre. Suas oferendas costumam incluir alimentos e objetos que refletem sua força e energia. As pimentas representam o fogo e a intensidade de Iansã.

Comidas Rituais

  • Acarajé (àkàrà): bolinho de feijão-fradinho frito no azeite de dendê — sua comida ritual preferida
  • Abará: bolo de feijão com camarão cozido em folha de bananeira
  • Acaçá: bolinho feito de milho branco, mel, leite ou água
  • Manga

Bebidas

  • Champanhe branca
  • Licor de anis ou menta

Frutas e Flores

Frutas: manga rosa, uvas, pera, maçã, morango, melão, melancia, laranja, banana, figo, ameixas, romã, pêssego, pitanga, framboesa, abacaxi, goiaba vermelha e cajá.

Flores: rosas amarelas, flores amarelas, girassol.

As Qualidades (Caminhos) de Oyá

Os vários itans existentes dão origem a várias qualidades de Iansã. As principais são:

  • Oyá Petu — ligada a Xangô, é a Oyá dos raios
  • Oyá Onira — rainha da cidade de Ira, a doce guerreira ligada às águas de Oxum
  • Oyá Bagan — ligada a Oxóssi, é a Oyá dos ventos e dos estreitos das matas
  • Oyá Senó ou Sinsirá — Oyá raríssima, ligada a Iemanjá e Airá
  • Oyá Kará — ligada a Xangô, ao fogo
  • Oyá Balé (Igbalé) — vive com os eguns, ligada a Oxalá, Nanã e ao vento do bambuzal

Oyá na Relação com Outros Orixás

Oyá percorreu diversos reinos e aprendeu com vários Orixás. No reino de Odé, seduziu o deus da Caça e aprendeu a caçar, a tirar a pele do búfalo e se transformar naquele animal. Iansã ajudava Ogum na forja dos metais, soprando o fogo com o fole para avivá-lo mais e mais, fabricando ferramentas e armas para as guerras de que ambos tanto gostavam. Por seu temperamento livre e guerreiro, Iansã era uma companheira perfeita para Ogum.

Obaluaê lhe disse: "Vou te ensinar a tratar dos Mortos." Oyá venceu seu medo com sua ânsia de aprender e com ele descobriu como conviver com os Eguns e controlá-los. Foi a primeira mulher de Xangô e tinha temperamento ardente e impetuoso. Conta uma lenda que Xangô a enviou em missão na terra dos baribas, a fim de buscar um preparado que, uma vez ingerido, lhe permitiria lançar fogo e chamas pela boca e pelo nariz. Costuma ser reverenciada antes de Xangô, como o vento personificado que precede a tempestade, sendo que a tempestade é uma das representações do deus do fogo Xangô.

Eparrei Oyá, Messan Orun!

"Eparrei Oyá, Messan Orun!" (Eu saúdo a deusa dos nove céus!). Essa saudação é utilizada para pedir sua força e proteção, principalmente em momentos de batalha ou quando se busca transformação.

Iansã é vista como uma protetora da liberdade. Sua história reflete a luta contra opressões, padrões restritivos e limitações impostas pela sociedade. Devotar-se a Iansã é buscar uma vida autêntica, guiada pela força interior. Nos rituais, Iansã é invocada para afastar energias negativas e equilibrar o contato com o mundo espiritual. Sua presença é uma lembrança de que a morte é parte do ciclo da vida e que os ancestrais devem ser honrados.

Oyá é o sopro que transforma, o raio que ilumina, o fogo que purifica e o vento que leva os espíritos ao Orum. Guerreira incansável, amante apaixonada, mãe dos nove — ela é a força que nos lembra de que toda tempestade passa, mas a coragem permanece. Eparrei, Oyá!

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