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Oxum

A Rainha das Águas Doces, do Amor e da Beleza: Ora Yê Yê Ô!

Oxum, Orixá das Águas Doces

Quem é Oxum?

Oxum é uma das divindades mais amadas e cultuadas nas religiões afro-brasileiras, sendo a orixá das águas doces, do amor e da fertilidade. É cultuada tanto no Candomblé quanto na Umbanda, mas com algumas diferenças importantes que refletem as especificidades de cada tradição. No Candomblé, Oxum é cultuada dentro do sistema das Yabás — as orixás femininas das águas e da fertilidade — ao lado de Iemanjá, Iansã e Nanã.

Seu domínio é a água em movimento suave: seu elemento é a água em discreto movimento nos rios, a água semiparada das lagoas não pantanosas, sendo as cachoeiras o local por excelência de seu culto, onde costumam ser-lhe entregues as comidas rituais votivas e presentes de seus filhos-de-santo. Não por acaso, ela é considerada a dona da água doce e, por extensão, de todos os rios.

Além de rainha das águas, Oxum é a senhora da beleza, da sedução, do amor e da riqueza. Muitas das maiores Yalorixás da história do Candomblé foram, ou são, filhas de Oxum, o que demonstra a força e a importância dessa orixá dentro da religião.

Origem e Genealogia

A genealogia de Oxum varia de acordo com a tradição e a nação. Na mitologia nagô (Ketu), a mais difundida no Candomblé brasileiro, Oxum é filha de Oxalá, o orixá da criação e da paz. Em outras nações e na Umbanda, ela é apresentada como filha de Iemanjá e Orunmilá, o adivinho supremo, tendo sido criada pelo pai, que satisfazia todos os seus caprichos — por isso cresceu cheia de vontades e vaidades.

Como esposa, Oxum integra o grupo das mulheres de Xangô, ao lado de Iansã e Obá — segundo a mitologia iorubá, Oxum é uma das esposas de Xangô, além de Iansã e Obá, tendo seduzido o rei do trovão e entregado tudo o que tinha para conquistá-lo.

Características de Oxum

Dia da semana: Sábado. Cores: Amarelo-ouro e dourado (Candomblé); azul (Umbanda). Elemento: Água doce em movimento (rios, cachoeiras, nascentes). Domínios: Amor, fertilidade, beleza, riqueza, prosperidade. Símbolo: Abebé (leque-espelho). Número: 8 e seus múltiplos. Saudação: Ora Yê Yê Ô! — "salve a que cuida" ou "salve a que protege com amor".

No sincretismo católico, Oxum é associada a Nossa Senhora Aparecida (Sudeste, 12 de outubro), Nossa Senhora da Candeia ou dos Prazeres (Bahia), Nossa Senhora do Carmo (Pernambuco, 16 de julho) e Nossa Senhora da Conceição (8 de dezembro).

Cores e seu Simbolismo

As cores de Oxum variam conforme a tradição e a nação, mas giram sempre em torno do dourado, do amarelo e, em algumas casas, do azul. O amarelo-ouro e o dourado são suas cores principais no Candomblé, refletindo o brilho do ouro e a luz do sentimento verdadeiro, onde o amarelo representa alegria, fertilidade e prosperidade, e o dourado é o brilho da autoestima e da fé. Na Umbanda, sua cor e vela são frequentemente azuis, apesar de alguns templos usarem o amarelo, mais comum no Candomblé; os fios de conta de Oxum na Umbanda podem incluir azul-turquesa além do dourado, dependendo da faceta cultuada.

Ferramentas e Símbolos Sagrados

As ferramentas de Oxum estão diretamente ligadas à sua vaidade, sua realeza e seu poder sobre as águas.

Abebé — O Leque-Espelho

O Abebé é seu principal símbolo — um leque em forma circular que pode vir com espelho, remetendo à sua beleza e ao movimento das águas. O espelho está ligado ao mito de sua vaidade diante das águas e conchas polidas onde apreciava sua imagem.

Alfange e Espada

O alfange e a espada estão presentes em qualidades mais guerreiras de Oxum, como Opará e Ipondá, servindo para defender seu povo e "cortar os caminhos na terra para suas águas passarem".

Outros Símbolos

  • Idés (pulseiras) e fios de conta coloridos — adornos rituais associados à sua elegância e à preparação de filhas-de-santo
  • Ecodidé — penas do pássaro sagrado usadas para adornar cabeças em rituais ligados a Oxum
  • Mel — símbolo da doçura que resolve onde a força falha
  • Cachoeiras e rios — sua morada sagrada

Itans (Mitos) de Oxum

Itan 1 — Oxum e o Segredo do Oráculo de Ifá

Um dos itans mais conhecidos sobre Oxum fala de seu desejo profundo por conhecimento. Ela desejava profundamente conhecer os segredos dos oráculos divinos, mas como seu pai não a permitia acessar esse saber, ela seduziu Exu para obtê-lo — e, em agradecimento, concedeu a Exu a honra de ser o primeiro orixá a ser reverenciado nos rituais com búzios. Esse itan explica por que, até hoje, nos jogos de búzios, Exu é sempre o primeiro a ser consultado antes de qualquer outra divindade.

Itan 2 — Oxum Salva o Povo da Fome, Seduzindo Ogum

Outro itan fundamental mostra Oxum como salvadora de sua comunidade através da sedução e da astúcia, e não da força. Nessa história, ela usa sua sensualidade para salvar sua comunidade da morte: dança com seus lenços e o mel, seduzindo Ogum até que ele volte a produzir os instrumentos para a agricultura, e assim a cidade fica livre da fome e da miséria. Esse mito reforça o papel de Oxum como aquela que resolve conflitos e tragédias não pela guerra, mas pela beleza, pela doçura e pela inteligência emocional.

Itan 3 — Oxum Enfrenta Olorum e Traz a Chuva de Volta

Há também um itan em que Oxum desafia diretamente a autoridade suprema. Nele, Oxum enfrenta o perigo quando Olorum, o Deus supremo, ofendido pela rebeldia dos orixás, prende a chuva no Orum (céu), deixando que a seca e a fome se abatam sobre o Aiê (a Terra). Coube a Oxum, orixá das águas, a missão delicada de intervir junto a Olorum para que a chuva voltasse a cair sobre a humanidade, salvando novamente seu povo da devastação.

Itan 4 — O Nascimento de Oxum Opará e a Rivalidade com Iansã

Este itan narra a origem de uma das qualidades mais guerreiras de Oxum — Oxum Opará — e sua relação com a irmã Iansã (Oyá). Reza a lenda que Oxum e Iansã eram irmãs, unidas pela força e separadas pelo orgulho, sendo esse itan responsável pelo nascimento de Oxum Opará, a orixá que carrega dentro de si o reflexo da serenidade e da tempestade.

Em outra versão registrada, envolvendo espelhos e vaidade, conta-se que vivia Oxum no palácio de Ijimu, passando os dias em seu quarto olhando seus espelhos, que eram conchas polidas onde apreciava sua própria imagem bela, até que um dia sua irmã Oyá entrou em seu aposento e se maravilhou com aquele universo de espelhos. Como desdobramento dessa disputa, Obatalá interveio: ao repreender Apará (Oxum), decidiu que a imagem de Oyá nunca seria esquecida por ela, condenando Oxum Opará a se vestir para sempre com as cores usadas por Oyá, levando nas joias e nas armas de guerreira o mesmo metal empregado pela irmã. É por isso que Oxum Opará, diferentemente das demais qualidades de Oxum, carrega elementos e cores associados a Iansã.

Itan 5 — Oxum e a Nascente que Atravessou um Rei

Um itan de cunho mais político-diplomático mostra a generosidade condicionada de Oxum. Certa vez, o rei de Oloú precisava atravessar o rio onde vivia Oxum, mas as águas se encontravam enfurecidas, impedindo a passagem de seus exércitos. O rei então fez um pacto com Oxum, oferecendo-lhe uma "bela prenda" em troca de baixar o nível das águas — mas o que ele realmente prometia, sem perceber o jogo de palavras, era entregar sua própria esposa, chamada justamente Prenda Bela, filha do rei de Ibadã. Cumprido o pacto — Oxum baixou o nível das águas e Oloú passou com seu exército —, a orixá reivindicou o que lhe fora prometido, mostrando sua astúcia e seu poder de negociação.

Qualidades (Caminhos) de Oxum

Assim como muitos orixás, Oxum se manifesta em diferentes qualidades ou "caminhos", cada um com características, cores e histórias próprias. Ela é retratada em diversas qualidades, como Oxum Ipondá, a guerreira, e Oxum Apokô, a que governa os rios. Algumas das principais são:

  • Oxum Opará (ou Apará) — faceta guerreira, vaidosa e intensa, ligada à disputa mítica com Iansã
  • Oxum Ipondá — rainha na cidade de Pondá, dona do rio Pondá; Ipondá é guerreira, vaidosa ao excesso, aponta sua espada para qualquer um e desafia o intruso, além de ser protetora especial das crianças
  • Oxum Abalô — uma Oxum antiga, reverenciada há séculos, conhecida como Iyá Ominibú, que mantém laços estreitos com Oyá, Ogum e Oxóssi, adornando-se com cores claras e carregando abebé e alfange
  • Oxum Ijímu (ou Ijimú) — representa outra faceta de Oxum, vestida em azul claro ou cor de rosa, portando abebé e alfange, com vínculos profundos com as Iyamís
  • Oxum Abotô — também uma Oxum antiga, associada às Iyamís e conhecida por sua prática feiticeira

Além disso, Oxum tem participação direta no sistema divinatório: juntamente com Orunmilá e Bará (Exu), ela é quem preside o Ifá, o jogo de búzios, respondendo em casos de saúde, harmonia familiar e prosperidade.

Oferendas para Oxum

As oferendas para Oxum se organizam em torno do doce, do dourado e do perfumado, sendo entregues preferencialmente perto de nascentes e cachoeiras.

  • Mel — a base doce da maioria das oferendas a Oxum, que adoça o gesto e simboliza a doçura e o afeto da orixá
  • Flores amarelas — rosa amarela, girassol e lírio são as prediletas, podendo ser depositadas na oferenda ou soltas na água
  • Frutas doces e amarelas — laranja-lima, melão amarelo, pera, uva, maçã e banana-ouro, além do pêssego, tradicionalmente associados à orixá
  • Feijão fradinho — um dos alimentos rituais mais tradicionais para Oxum
  • Espelhos, joias e perfumes — presentes simbólicos que remetem à sua vaidade e beleza, comuns entre suas oferendas

Vale destacar que o que se oferece de coração já cumpre seu papel — mas é sempre recomendável buscar orientação de sacerdotes e sacerdotisas para conhecer os fundamentos específicos de cada casa antes de realizar qualquer oferenda.

Cantigas para Oxum

As cantigas de Oxum, cantadas tanto no xirê do Candomblé quanto nos pontos de Umbanda, exaltam sua beleza, sua doçura e seu domínio sobre as águas.

Cantiga 1: "Ora Yê Yê Ô"

Ora yê yê ô, Oxum
Ora yê yê ô
Ora yê yê ô, Mamãe Oxum
Ora yê yê ô

A cantiga mais simples e poderosa de Oxum. "Ora yê yê ô" significa "salve a bondosa mãe". É a saudação fundamental do xirê, entoada para chamar a rainha das águas doces para a dança. O ritmo ijexá, suave e cadenciado, evoca o fluir das cachoeiras e a graça dos movimentos de Oxum.

Cantiga 2: "Oxum Karê"

Oxum Karê, Karê Ijexá
Oxum Karê, Karê Ijexá
Rorá Yeye ó, ofi de ri oman
Rorá Yeye ó, ofi de ri oman

Cantiga que saúda Oxum como rainha do povo Ijexá. "Karê" é uma saudação real, e "Ijexá" remete à nação de onde Oxum é soberana. "Rorá Yeye ó, ofi de ri oman" é uma invocação à mãe que cuida das águas. É uma das cantigas mais alegres do xirê, celebrada com palmas e movimentos suaves.

Cantiga 3: "Omi Ro A"

Omi ro a, wara-wara omi ro
O fi ide se mo l'Oyó
Omi ro a, wara-wara omi ro
O fi ide se mo lowo

"Omi ro a" significa "a água corre" e "wara-wara" é a onomatopeia da água rápida. "O fi ide se mo" descreve Oxum balançando suas pulseiras de latão. Esta cantiga evoca a imagem de Oxum sentada à beira do rio, fazendo soar suas pulseiras como a água corrente.

Nota: As cantigas aqui reproduzidas fazem parte da tradição oral do Candomblé Ketu. A entonação, o ritmo e o contexto ritual são fundamentais para o correto uso litúrgico. Estas letras são oferecidas para estudo e conhecimento da tradição.

Os Filhos de Oxum

Quem tem Oxum como orixá de cabeça carrega marcas de personalidade bastante particulares, ligadas à sensibilidade das águas e à vaidade da orixá.

Toda essa sensibilidade torna os filhos de Oxum extremamente dengosos, carinhosos e até um pouco mimados para com aqueles que amam, estando sempre prontos para oferecer colo a quem precisa, mas também para pedir colo quando estão fragilizados. Não por acaso, costumam ser conhecidos por serem muito sensíveis e chorões, sendo, inclusive, os mais sensíveis dentre todos os protegidos dos orixás.

Segundo o pesquisador francês Pierre Verger, o arquétipo de Oxum é das mulheres graciosas e elegantes, com paixão pelas joias, perfumes e vestimentas caras, símbolo do charme e da beleza — voluptuosas e sensuais, porém mais reservadas que as de Iansã, evitando chocar a opinião pública, à qual dão muita importância.

Sob a aparência graciosa e sedutora, escondem uma vontade muito forte e um grande desejo de ascensão social, sendo pessoas muito desconfiadas e possuidoras de grande intuição, colocada muitas vezes ao serviço da astúcia — preferem contornar habilmente um obstáculo a enfrentá-lo de frente, num movimento que lembra o próprio rio contornando as pedras em seu caminho.

Costumam ter uma estrutura física com cintura fina e quadris largos, com tendência a ganhar peso, já que adoram os prazeres da vida e da comida. Sua conexão espiritual é notável, sendo intuitivos e sensitivos, com um vínculo especial com o mundo espiritual — não é à toa que grandes ialorixás da história do Brasil têm essa ligação com Oxum. Entre os desafios de personalidade estão o ciúme, apontado como seu maior defeito, além de traços como serem chantagistas, dramáticos e possessivos quando desequilibrados.

Ora Yê Yê Ô, Mamãe Oxum!

Oxum é, sem dúvida, uma das orixás mais complexas e fascinantes do panteão afro-brasileiro — a rainha das águas doces, a senhora do amor e da beleza, a guardiã da fertilidade e uma das divindades que preside os oráculos de Ifá. Sua trajetória mítica, marcada pela astúcia, pela sedução transformadora, pela vaidade e pelo profundo amor materno, faz dela um símbolo de força emocional e resiliência.

Seja através do abebé dourado, das cachoeiras onde recebe suas oferendas, das cores amarelo e dourado ou das cantigas de "Ora yê yê ô" entoadas em terreiros por todo o Brasil, Mamãe Oxum permanece viva no coração de seus filhos, unindo a ancestralidade iorubá à espiritualidade brasileira contemporânea.

Ora Yê Yê Ô, Mamãe Oxum!

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