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Ossayn (Ossanha)

O Senhor das Folhas Sagradas: Kò sí ewé, kò sí Òrìsà

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Ossayn, Orixá das Folhas Sagradas

Ossaim é uma das divindades do panteão do Candomblé, reverenciado como o poderoso orixá das ervas e plantas medicinais. Seu nome possui muitas variações: Oçânhim, Oçãe, Oçãim, Oçanha, Oçanhe, Oçânim, Oçonhe, Ossanha, Ossaim ou Ossanhe (em iorubá: Ọ̀sányin).

Ossaim é o Orixá que conhece todos os segredos e benefícios das ervas e plantas. Ele é a personificação da natureza vegetal, o "dono" da vegetação, plantas medicinais e todas as ervas que fornecem energia e equilíbrio físico e espiritual para o ser humano. Ossaim é um orixá originário da região de Iraó, na Nigéria, muito próxima da fronteira com o antigo Daomé. Não faz parte, como muitos pensam, do panteão Jeje assimilado pelos Nagô, como Nanã, Omolú, Oxumaré e Ewá.

Kó si ewé, kó sí Òrìsà: sem folhas não há orixá, elas são imprescindíveis aos rituais do Candomblé. Cada orixá possui suas próprias folhas, mas só Ossaim conhece os seus segredos, só ele sabe as palavras (ofó) que despertam o seu poder, a sua força. Ossaim desempenha uma função fundamental no Candomblé, visto que sem folhas, sem a sua presença, nenhuma cerimônia pode realizar-se, pois ele detém o axé que desperta o poder do sangue verde das folhas.

Ossaim é o grande sacerdote das folhas, grande feiticeiro, que por meio das folhas pode realizar curas e milagres, pode trazer progresso e riqueza.

Características de Ossaim

Dia da semana: Quinta-feira. Data comemorativa: 05 de outubro. Cores: Verde e branco (e todas as variações de verde, dependendo da nação). Fio-de-contas: Verde, branco, verde rajado de branco ou branco rajado de verde. Ferramenta: Haste de ferro com sete pontas e pássaro no topo (Opere / Avivi). Saudação: Ewé Ó! Ewé Ó! ou Ewé Ewé Assá!

No sincretismo católico, Ossaim é associado a São Benedito e também a Santo Onofre, comemorados no dia 05 de outubro. Sua quizila (proibição) é a ventania, por isso é preferível que suas oferendas sejam entregues nas matas virgens.

Os Símbolos e Instrumentos de Ossaim

Ossaim é representado por símbolos que remetem ao seu domínio sobre as matas e ao seu conhecimento profundo das folhas. Suas ferramentas carregam o axé da cura e do mistério.

A Haste de Ossaim (Opere / Avivi)

O símbolo máximo de Ossaim é uma haste de ferro central com um pássaro na ponta. Do meio dessa haste saem sete pontas dirigidas para cima, chamada de Opere ou Avivi. É a principal ferramenta de Ossaim, representando seu domínio sobre o céu e a terra e sua capacidade de se comunicar com os espíritos da mata.

Aparência e Personalidade

Sua figura é marcada por peculiaridades: Ossaim tem apenas um olho, um braço e uma perna, e suas orelhas são assimétricas, com uma maior que a outra. Ele vive recluso nas montanhas, onde passa a maior parte do tempo em isolamento.

Ossaim é dotado de uma personalidade complexa, marcada por traços de introspecção, nostalgia e intensidade. Embora seja generoso e tenha uma profunda ligação com os animais, especialmente os pássaros, também demonstra uma natureza reservada. Como orixá estudioso e dedicado, é reconhecido por seu vasto domínio sobre as plantas e seus segredos. Ele nunca compartilhava completamente seu saber, pois acreditava que as pessoas não seriam capazes de guardar tais informações com a devida responsabilidade.

Outros Símbolos

  • O ramo de folhas – representa seu domínio sobre as plantas
  • O pássaro – simboliza a sabedoria e a conexão com a natureza
  • A faca ritualística – usada para preparar remédios e oferendas

Qualidades (Caminhos) de Ossaim

Ossaim possui diferentes qualidades, entre elas: Ossaim Agué — tem vestes rosas e verdes e está ligado a Oxumaré e Oyá; Ossaim Aroni — idoso, protetor das matas e da morte.

O Assistente Aroni

Ossaim tem como auxiliar o misterioso Aroni, que se responsabiliza por causar terror em pessoas que entram na floresta sem a devida permissão. Aroni é um anãozinho perneta que fuma cachimbo (figura bastante próxima ao Saci-Pererê), possui um olho pequeno e o outro grande (vê com o menor) e tem uma orelha pequena e a outra grande (ouve com a menor). Muitas vezes Aroni é confundido com o próprio Ossaim. Não se pode, por isso, confundir Ossaim com o Saci-Pererê, que é um personagem do folclore brasileiro.

As Histórias Sagradas de Ossaim

A Origem de Ossaim

Ossaim é filho de Nanã e irmão de Ewá e Obaluaê. Ainda rapazinho, teve um desentendimento com a mãe e fugiu para a mata. Lá plantou sua raiz, tornando-se o dono de todas as folhas e do mato.

Na verdade, Ossaim e Oxóssi possuem inúmeras afinidades: ambos são orixás do mesmo espaço, da floresta, do mato, das folhas, grandes feiticeiros e conhecedores dos segredos da mata, da Terra.

Itan: O Segredo das Folhas

Ossaim recebeu de Olorum o segredo das folhas. Somente ele sabia como manipular e obter o poder de cada erva. Ossaim sabia que algumas delas traziam a calma ou o vigor. Outras, a sorte, a glória, as honras ou ainda, a miséria, as doenças e os acidentes. Os outros orixás não tinham poder sobre nenhuma planta. Todos os orixás dependiam de Ossaim para manter sua saúde ou para o sucesso de suas iniciativas.

Xangô, cujo temperamento é impaciente, guerreiro e impetuoso, irritado por esta desvantagem, usou de um ardil para tentar usurpar de Ossaim a propriedade das folhas. Falou dos seus planos à sua esposa Iansã. Xangô explicou que, em certos dias, Ossaim pendurava, num galho de Irôko, uma cabaça contendo suas folhas mais poderosas. "Desencadeie uma tempestade bem forte num desses dias", disse Xangô a Iansã, que aceitou a missão com muito gosto.

Então, o vento de Iansã soprou grandes rajadas, levando o telhado das casas. Iansã soprou e seus ventos arrancaram árvores, e a ventania saiu quebrando tudo por onde passava e, por fim, soltou a cabaça do galho onde estava pendurada. A cabaça rolou para longe, e todas as folhas voaram em todas as direções. Neste dia, os orixás se apoderaram das folhas e, assim, cada um tornou-se dono de algumas delas.

Mas Ossaim permaneceu "senhor do segredo das folhas", guardando as virtudes que se desprendem das ervas, apenas quando as palavras certas forem pronunciadas, para libertar sua ação mágica. Mesmo que os outros orixás tenham se apoderado de folhas específicas, somente Ossaim conhece os ofós (palavras de encantamento) que despertam o poder das ervas. Sem ele, nenhuma folha age. Ele é, e permanece, o Senhor Absoluto do reino vegetal.

Itan: Ossaim e Orunmilá

Ossaim estudava muito e já possuía certo conhecimento das plantas e de suas propriedades. Certo dia, quando passava por Àgbàsaláààrin ayé lòrun (rocha entre o céu e a Terra), Ossaim encontrou o Orixá Orunmilá, que descia do céu carregando diversas folhas para nomeá-las. Ossaim contou que estava indo buscar folhas medicinais para fazer remédios para os seres humanos doentes. Orunmilá reconheceu a dedicação de Ossaim e transmitiu a ele o nome e segredos de todas as plantas que carregava. Assim, os dois Orixás desceram com as folhas para a Terra e as espalharam pelo planeta.

De acordo com a história desse orixá, há uma rivalidade entre Ossaim e Orunmilá, que reflete, na verdade, a antiga disputa entre os Oníìsegùn (mestres em medicina natural que dominavam o poder das folhas) e os Babalawó (sacerdotes versados nos profundos mistérios do cosmo e do destino dos seres, os pais do segredo).

As Cantigas de Ossaim

As cantigas de Ossaim no Candomblé Ketu são entoadas durante o xirê e nos rituais de encantamento de folhas (Sasanha). Uma das cantigas mais tradicionais faz referência ao Peregun, planta sagrada de Ossaim. Entre as cantigas conhecidas estão Ewé Ó, Ossã, Ewé Ó (saudação às folhas e à natureza) e Abebe Ni Bo Wa, Peregun Alaso Titun (louvor às folhas sagradas).

O Ritual da Sasanha, sendo um rito ligado ao Orixá Ossaim, tem como função encantar as folhas que são utilizadas nos diversos rituais dentro do Candomblé. Tudo no Candomblé possui uma fundamentação e uma preparação específica, um encantamento e uma magia. A Sasanha é feita para encantar todas as folhas que serão utilizadas dentro do culto. Todo o ritual deve ser seguido do acompanhamento de atabaques ou agogô no ritmo Agueré Ossaim, com muitas saudações e louvores.

Cantiga 1: Ewé Ó

Ewé ó, Ossã, Ewé ó
Ewé ó, Ossã, Ewé ó

A cantiga mais simples e poderosa. É uma saudação direta a Ossain e às folhas sagradas. Entoada em momentos de abertura dos trabalhos com ervas ou durante o xirê, ela conecta o terreiro ao axé verde da mata.

Cantiga 2: Abebe Ni Bo Wa, Peregun

Abebe ni bo wa, Peregun alaso titun
Abebe ni bo wa, Peregun alaso titun
Baba, Peregun ewe wa l'ese
Peregun ewe wa titun

Esta cantiga louva o poder das folhas renovadas. "Peregun" refere-se ao axé das folhas que se renovam, e "alaso titun" significa roupas novas, simbolizando a renovação espiritual que as ervas proporcionam.

Cantiga 3: Omim Tun Onã, Mojubá Onilé

Omim tun onã, mojubá onilé
Omim tun onã, mojubá onilé
Ossã, mojubá onilé
Ewé, mojubá onilé

"Omim tun onã" significa "água abre o caminho", e "mojubá onilé" é uma saudação de respeito ao dono da casa (a terra). Esta cantiga pede a Ossayn que abra os caminhos através das folhas e da água, elementos fundamentais nos rituais de limpeza e cura.

Cantiga 4: Peregun Ewe

Peregun ewe wa titun o
Peregun ewe wa titun
Baba, peregun ewe wa l'ese
Peregun ewe wa titun

Cantiga tradicional do candomblé Ketu que louva o axé renovado das folhas. "Baba" é o tratamento respeitoso ("Pai") e "l'ese" remete aos pés, simbolizando que o poder das folhas está ao alcance dos pés do sacerdote.

Nota: As cantigas aqui reproduzidas fazem parte da tradição oral do Candomblé Ketu. A entonação, o ritmo e o contexto ritual são fundamentais para o correto uso litúrgico. Estas letras são oferecidas para estudo e conhecimento da tradição.

Oferendas a Ossaim

As oferendas a Ossaim devem ser entregues no interior da mata, sendo o coqueiro a árvore consagrada a este Orixá. As velas não devem ser acesas, pois Ossaim não suporta que suas ervas queimem.

Oferendas Tradicionais

Suas principais oferendas são leves e naturais:

  • Fumo de rolo
  • Mel
  • Cachaça
  • Milho torrado com amendoim e castanha (Abadô)
  • Frutas
  • Inhame

Receita Tradicional de Oferenda

Ingredientes: azeite de oliva, folhas de fumo, 3 quilos de inhame, mel e sal. Modo de preparo: cozinhe os inhames descascados e os amasse usando um pilão ou as mãos. Lave o alguidar utilizando água e mel, na sequência o forre com as folhas do fumo previamente lavadas, coloque a massa de inhame por cima e regue com azeite e acrescente uma pitada de sal. As velas não devem ser acesas.

Folhas Sagradas de Ossaim

Ossaim detém o axé absoluto das folhas, o que significa que nenhuma erva pode ser usada para cura, proteção ou rituais sem sua permissão. Antes de utilizar qualquer folha em rituais de candomblé ou umbanda, é necessário invocar Ossaim, pois ele é o único que pode liberar seu poder.

Entre as folhas mais utilizadas nos cultos estão:

  • Aroeira – usada para proteção e limpeza espiritual
  • Arruda – poderosa contra mau-olhado e energias negativas
  • Guiné – fortalece o espírito e afasta influências ruins
  • Espada-de-São-Jorge – corta demandas e afasta inimigos

Os Filhos de Ossaim

É muito raro encontrar os filhos e filhas de Ossaim, isto pode ser porque eles possuem características como as do Orixá, que é extremamente reservado.

São curiosos e não aceitam uma afirmação facilmente, querem saber o porquê de tudo e estudar possíveis caminhos, o que faz com que sejam ótimos em descobertas e estudos aprofundados. A pressa e a ansiedade não fazem parte de sua vida. Precisam de espaço para analisar meticulosamente cada detalhe, características que os tornam pessoas detalhistas e que preferem, na maioria das vezes, trabalhar sozinhas.

Os filhos de Ossaim são pessoas extremamente equilibradas e cautelosas, que não permitem que as suas simpatias ou antipatias interfiram nas suas opiniões sobre os outros. Controlam perfeitamente os seus sentimentos e emoções. Possuem grande capacidade de discernimento e são frios e racionais nas suas decisões. São pessoas extremamente reservadas, não se metem em questões que não lhes dizem respeito. Participam em poucas atividades sociais, preferindo o isolamento.

Ewé Ó! Ewé Ewé Assá!

"Sem folha não há orixá" é uma das frases mais importantes para entender Ossaim. Ela significa que o culto aos orixás depende profundamente do reino vegetal. As folhas participam de limpezas, banhos, iniciações, assentamentos, obrigações, comidas, ritos e cuidados espirituais. Elas carregam axé e ajudam a preparar o corpo, o ambiente e a cabeça para o contato com o sagrado.

Ossaim nos ensina que o verdadeiro poder não está apenas na posse, mas no conhecimento. As folhas podem estar nas mãos de todos, mas somente quem sabe as palavras certas — os ofós — pode despertar sua magia. Ele é o lembrete de que a natureza é sagrada, que a cura vem da terra, e que sem respeitar o verde, nenhum axé se sustenta.

Ewé Ó! Ewé Ewé Assá! Salve Ossaim!

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