Quem é Ogum?
Ogum é um orixá central no Candomblé e na Umbanda, reverenciado como divindade do ferro, da guerra, da agricultura e da tecnologia. Em iorubá, grupo étnico-linguístico da África Ocidental, Ogum significa "guerra". Na cosmologia iorubá, Ogum é um dos orixás mais venerados. Ele é o deus do ferro, da guerra, da tecnologia, da agricultura e da civilização. Sua energia é marcada pela coragem, determinação e um espírito incansável de luta.
Pode parecer estranho que Ogum no Candomblé seja ao mesmo tempo o deus da guerra, da tecnologia, da agricultura e da caça, mas a mitologia africana traz uma explicação: Ogum, para sobreviver na floresta, forjava suas próprias armas (tecnologia). Essas armas serviam tanto para caçar (agricultura) quanto para golpear seus inimigos (guerra). Logo após a criação do mundo, Ogum foi o primeiro Orixá a vir para a Terra. Por isso, em muitas nações africanas, seu nome é Oriki ou Osin Imole, que significa "o primeiro orixá na Terra".
A importância de Ogum vem do fato de ser ele um dos mais antigos dos deuses iorubás e, também, em virtude da sua ligação com os metais e aqueles que os utilizam. Sem sua permissão e sua proteção, nenhum dos trabalhos e atividades úteis e proveitosas seriam possíveis. Ele é, então e sempre, o primeiro e abre o caminho para os outros orixás.
O nome Ogum (Ògún) está ligado à ideia de força, guerra e ferro — os três pilares de sua existência. A saudação "Ogunhê!" deriva da expressão iorubá "Ògún yè" ("Ogum vive"), celebrando a vitalidade e liderança do orixá. Ogum é o filho mais velho de Odudua, o herói civilizador que fundou a cidade de Ifé. Quando Odudua esteve temporariamente cego, Ogum tornou-se seu regente em Ifé.
A Trajetória de Ogum: Da África ao Brasil
Orixá conquistador, Ogum fez-se respeitar em toda a África negra pelo seu carácter devastador. Foram muitos os reinos que se curvaram diante do poder militar de Ogum. Entre os muitos Estados conquistados por Ogum estava a cidade de Iré, da qual se tornou senhor após libertar a cidade da tirania do rei e substituí-lo pelo seu próprio filho, regressando glorioso com o título de Oníìré, ou seja, Rei de Iré.
É ele quem "dá aos homens o segredo do ferro, cria a forja e fabrica os primeiros instrumentos agrícolas", abrindo caminho para o avanço das técnicas de cultivo e para o aumento da produção de alimentos. Ogum é símbolo de luta e conquistas, um Orixá muito respeitado e cultuado no Brasil. Tem um dos mais fortes sincretismos, representado por São Jorge, também destemido guerreiro e que nunca abandonou sua causa.
Com a diáspora africana e o tráfico de escravizados, o culto a Ogum foi trazido ao Brasil, onde se enraizou profundamente, tornando-se um dos orixás mais populares e presentes na cultura afro-brasileira, na música, no carnaval, nos ditados e na vida cotidiana do povo.
Características e Arquétipo de Ogum
Os osoríkì de Ogum demonstram seu caráter aterrador e violento: "Ogum que, tendo água em casa, lava-se com sangue". Os prazeres de Ogum são os combates e as lutas. Ogum come cachorro e bebe vinho de palma. "Ogum, o violento guerreiro, o homem louco com músculos de aço, o terrível ebora que se morde a si próprio sem piedade."
O Arquétipo do Guerreiro e do Trabalhador: Ogum é a força que reside na disciplina, na objetividade e na garra. Ele é invocado para abrir caminhos, cortar demandas, proteger motoristas e operar transformações. Ele representa o ser humano que enfrenta o desafio de frente, com a franqueza e a dureza necessárias para a luta e o trabalho. É o orixá das encruzilhadas em linha reta, onde não cabe dúvida, apenas passo firme. Senhor das ferramentas e do trabalho, é ele quem prepara o chão para que outros caminhem.
Os Filhos de Ogum
Filhos de Ogum são caracterizados como intensos, líderes, atraídos por desafios, habilidosos e propensos a caminhos de luta. Os filhos de Ogum geralmente são pessoas que se irritam facilmente e têm opiniões muito fortes no que acreditam.
São pessoas de ação, diretas e objetivas, que não suportam meias palavras. Detestam injustiças e são os primeiros a levantar-se por uma causa. São trabalhadores incansáveis, leais com quem amam e implacáveis com quem os trai. Como seu pai Orixá, preferem a solidão produtiva à companhia vazia. São guerreiros natos, impacientes, de temperamento explosivo, mas de coração generoso.
Ficha Ritual de Ogum
| Dia da semana | Terça-feira |
| Cores | Azul-escuro, verde e vermelho; azul e branco (Candomblé), vermelho (Umbanda) |
| Elemento | Ferro — símbolo de força, transformação e construção |
| Domínios | Guerra, Metalurgia, Agricultura, Tecnologia, Caminhos |
| Metal | Ferro e Aço |
| Número sagrado | 7 e 21 |
| Saudação | "Ogunhê!" — "Ògún yè" ("Ogum vive") |
| Sincretismo | São Jorge, 23 de abril |
| Animal sagrado | Cachorro |
| Planeta | Marte |
| Ponto de Força | Beiras de estrada, trilhas, florestas, encruzilhadas em linha reta |
Cores e seu Simbolismo
As cores associadas a Ogum são o vermelho e o verde. Essas cores refletem a energia vibrante, a paixão pela vida e a ligação com a natureza. As cores de Ogum são o azul e o branco, ou o branco e o vermelho, variando conforme a nação e a tradição do terreiro.
O azul-escuro representa a profundidade da luta espiritual, a fidelidade do guerreiro e a noite que antecede a batalha. O verde remete às matas, à natureza e à agricultura — os campos que Ogum abriu com seu machado de ferro para que a humanidade pudesse plantar e colher. O vermelho simboliza o sangue das batalhas, a coragem e a paixão que move Ogum adiante. O branco reflete a pureza de propósito do guerreiro que luta por justiça.
Na Umbanda, predomina o vermelho; no Candomblé de nação Ketu, as combinações de azul-escuro e verde ou azul e branco são mais comuns. As contas (fios de conta) dos filhos de Ogum seguem essas cores, dependendo da casa e da qualidade.
Ferramentas e Símbolos Sagrados
Os principais símbolos de Ogum incluem a espada, o escudo e as ferramentas de ferreiro. Cada símbolo carrega significados profundos que representam aspectos da personalidade e domínio de Ogum.
A Espada — Idá
A espada está ligada ao orixá de três formas: por ser guerreiro e caçador, Ogum rege as armas em geral; por ser ferreiro, é fabricante de objetos de metal; e, finalmente, é o orixá regente do ferro, matéria-prima para a maioria das armas. A espada é uma das representações mais conhecidas de Ogum. A espada de Ogum representa sua capacidade de abrir caminhos e cortar tudo aquilo que impede a evolução.
As Sete Ferramentas
Um dos símbolos desse Orixá são as sete ferramentas juntas, que representam exatamente esse poder sobre os metais, em especial o ferro, considerado o metal negro, símbolo da relação de Ogum com o elemento terra. Ogum é senhor da metalurgia, tendo domínio sobre o ferro e o aço e todas as ferramentas feitas com esses materiais, como a lança, o martelo, a faca, a ferradura e a enxada.
As sete ferramentas representam os sete caminhos de Ogum e o domínio completo que ele exerce sobre os metais. Geralmente incluem: espada, lança, enxada, pá, picareta, faca e martelo — todas feitas de ferro, remetendo ao ofício do ferreiro e à essência guerreira e trabalhadora do orixá.
O Escudo (Akòfena)
O escudo representa a proteção que Ogum oferece aos seus devotos. Assim como na batalha o guerreiro se defende, o escudo de Ogum protege seus filhos das investidas espirituais e materiais.
O Mariwô — As Folhas de Palmeira
Na África (em Irê), os assentamentos de Ogum são depositados debaixo da árvore de akoko, sendo o akoko uma folha de Ogum e Ossaim. Quanto às folhas de palmeira desfiada, o mariwô — muito usado nas casas de candomblé —, diversas cantigas de rum de Ogum fazem referência ao fato de Ogum se vestir de mariwò.
O mariwô (folha de dendezeiro desfiada) é uma das marcas mais visíveis de Ogum nos terreiros. Ele é colocado nas portas dos barracões e nos assentamentos, simbolizando proteção, demarcação do espaço sagrado e a presença de Ogum como guardião.
Outros Símbolos
- Cavalo — na representação sincrética com São Jorge, o cavalo branco é frequentemente associado a Ogum
- Ferradura — símbolo de proteção e boa sorte, ligada ao ferro
- Corrente de ferro — ligação entre o mundo material e o espiritual
Itans (Mitos) de Ogum
Itan 1 — Ogum e o Segredo do Ferro
Na Terra criada por Obatalá, em Ifé, os Orixás e os seres humanos trabalhavam e viviam em igualdade. Todos caçavam e plantavam usando frágeis instrumentos feitos de madeira ou pedra, por isso todo trabalho exigia grande esforço. Com o aumento da população de Ifé, a comida andava escassa; era necessário plantar uma área maior. Os Orixás então se reuniram para decidir como fariam para remover as árvores do terreno e aumentar a área da lavoura.
Ossaim, o Orixá das ervas e plantas, dispôs-se a ir primeiro e limpar o terreno, mas seu instrumento de corte era frágil e se quebrou; e ele não foi bem-sucedido. Do mesmo modo, todos os outros Orixás tentaram, um por um; e fracassaram na tarefa de limpar o terreno para o plantio.
Foi então que Ogum apresentou seu segredo: ele havia descoberto o ferro na floresta e aprendido a forjá-lo. Com um machado de ferro, derrubou todas as árvores e limpou o terreno em pouco tempo. Os orixás, maravilhados, aclamaram Ogum como rei. Os humanos também vieram a Ogum pedir-lhe o conhecimento do ferro, e Ogum lhes deu o conhecimento da forja, até o dia em que todo caçador e todo guerreiro tiveram suas lanças de ferro.
Ogum foi o Orixá que, ao descobrir o ferro na floresta, aprendeu a extraí-lo, forjá-lo e moldá-lo usando o fogo. Essa descoberta foi fundamental para a humanidade, pois ele criou o machado (para derrubar a floresta e praticar a agricultura) e a faca (para caçar e para os sacrifícios rituais), tornando-se o patrono dos ferreiros, agricultores, caçadores e de todos que utilizam o metal.
Itan 2 — Ogum se Exila na Floresta e Parte para Irê
Mas, apesar de Ogum ter aceitado o comando dos orixás, antes de mais nada ele era um caçador. Certa ocasião, saiu para caçar e passou muitos dias fora numa difícil temporada; quando voltou da mata, estava sujo e maltrapilho. Os orixás não gostaram de ver seu líder naquele estado, eles o desprezaram e decidiram destituí-lo do reinado. Ogum se decepcionou com os orixás, pois, quando precisaram dele para o segredo da forja, eles o fizeram rei e agora dizem que não era digno de governá-los; então Ogum banhou-se, vestiu-se com folhas de palmeira desfiadas, pegou suas armas e partiu; num lugar distante chamado Irê, construiu uma casa embaixo da árvore de acocô e lá permaneceu.
Os humanos que receberam de Ogum o segredo do ferro não o esqueceram. Todo mês de abril, celebram festas em homenagem a Ogum. Caçadores, guerreiros, ferreiros e muitos outros fazem sacrifícios em memória de Ogum. Esse itan explica a origem do exílio de Ogum e do título "Oníìré" (Rei de Irê), além do motivo pelo qual Ogum se veste de mariwô (folha de palmeira desfiada) — roupa que ele vestiu ao partir, ferido de orgulho, para a solidão da floresta.
Itan 3 — A Conquista de Irê e a Tragédia do Silêncio
O Rei de Irê e a Tragédia do Silêncio: Ogum era um guerreiro incansável, conquistando reinos vizinhos e trazendo a vitória e o espólio para Ifé. Em uma de suas campanhas, ele conquistou a cidade de Irê (sete aldeias), matou o rei local e colocou seu próprio filho no trono. Ele assumiu o título de "Onirê" (Rei de Irê). Após um longo período guerreando, Ogum retornou a Irê.
Ogum vivia em sua aldeia, quando foi requisitado para uma guerra, que não tinha data para acabar. Antes de partir, ele exigiu que seus habitantes dedicassem um dia em sua homenagem, fazendo o sacrifício de jejuar e fazer silêncio absoluto.
Conta-se que, ao retornar após longa campanha militar, Ogum encontrou a cidade em completo silêncio — exatamente como ele havia ordenado. Porém, interpretando o silêncio como desprezo e desacato, Ogum, tomado por uma fúria cega, passou a matar os próprios súditos com sua espada. Quando seu filho finalmente conseguiu explicar que o silêncio era a homenagem que ele mesmo pedira, Ogum sentiu enorme arrependimento e decidiu que não queria mais viver. Ele desapareceu sob a Terra, tornando-se o orixá que conhecemos hoje.
Esse é um dos itans mais trágicos e profundos: ensina que a força sem discernimento pode destruir até mesmo aquilo que mais amamos. Ogum, ao afundar na terra, transcendeu a condição humana e se tornou divindade — o orixá eterno.
Itan 4 — Ogum, Oyá e Xangô: A Traição e a Rivalidade
Antes de tornar-se esposa de Xangô, Oyá vivia com Ogum. Ela vivia com o ferreiro e ajudava-o em seu ofício, principalmente manejando o fole para ativar o fogo na forja. Certa vez, Ogum presenteou Oyá com uma varinha de ferro, que deveria ser usada num momento de guerra.
Xangô sempre ia à oficina de Ogum apreciar seu trabalho e em várias oportunidades arriscava olhar para sua bela mulher. Xangô impressionava Oyá por sua majestade e elegância. Um dia os dois fugiram para longe de Ogum, que saiu enciumado e furioso em busca dos fugitivos. Quando Ogum os encontrou, houve uma luta de gigantes.
Depois de lutar com Xangô, Ogum aproximou-se de Oyá e a tocou com sua varinha, e nesse mesmo tempo Oyá tocou Ogum também; foi quando o encanto aconteceu: Ogum dividiu-se em sete partes, recebendo o nome de Ogum Mejê, e Oyá foi dividida em nove partes.
Esse itan explica a origem das sete qualidades de Ogum (Ogum Mejê) e das nove qualidades de Oyá (Iyá Mésàn), além de retratar a rivalidade eterna entre Ogum e Xangô — o guerreiro bruto contra o rei político; a força da espada contra o poder do raio. Xangô é seu rival. A disputa entre Ogum (a força bruta) e Xangô (a justiça e a política) é um tema central, frequentemente ligada à disputa por Oyá e ao poder.
Itan 5 — Ogum e a Mulher-Búfalo
Iansã fez da pele uma trouxa, colocou os chifres dentro e escondeu-a no formigueiro, partindo em direção ao mercado, sem perceber que Ogum tinha visto tudo. Assim que ela se foi, Ogum se apoderou da trouxa, guardando-a em seu celeiro. Depois foi à cidade, e passou a seguir a mulher até que criou coragem e começou a cortejá-la. Mas como toda mulher bonita, ela recusou a corte. Quando anoiteceu, ela voltou à floresta e, para sua surpresa, não encontrou a trouxa. Tornou à cidade e encontrou Ogum, que lhe disse estar com ele o que procurava. Em troca de seu segredo (pois ele sabia que ela não era uma mulher e sim animal), Iansã foi obrigada a se casar com ele.
Ela teve nove crianças, o que provocou o ciúme das outras esposas de Ogum. Estas, porém, conseguiram descobrir o segredo da aparição da nova mulher. Esse itan é uma das narrativas mais ricas do panteão iorubá, mostrando como Ogum conquistou Iansã pela astúcia, mas acabou perdendo-a para Xangô — provando que nem toda conquista se mantém pela força.
Itan 6 — A Batalha contra Exu
Nesta lenda fascinante, é contada uma batalha épica entre Ogum e Exu. A narrativa destaca a busca incansável de Ogum pela ordem e equilíbrio no universo. Exu, o guardião das encruzilhadas e senhor das transições, desafia a paz e a harmonia buscadas por Ogum. A batalha entre esses dois poderosos orixás simboliza a constante luta entre as forças do caos e da ordem, um tema central na mitologia iorubá. A história revela não apenas a bravura de Ogum como guerreiro, mas também seu compromisso com a preservação da estabilidade cósmica.
Itan 7 — Ogum, o Fundador de Ifé
Ogum é reverenciado como o fundador da cidade de Ifé, uma narrativa que destaca seu papel vital como construtor da civilização. Nessa lenda, Ogum não é apenas o guerreiro, mas o urbanista, o engenheiro, o desbravador. Com suas ferramentas de ferro, ele abriu caminhos na mata, construiu estradas, edificou muralhas e organizou a vida em comunidade. Sem Ogum, não haveria civilização — e é por isso que ele é saudado como o primeiro, aquele que chega antes de todos para preparar o terreno.
As Qualidades (Caminhos) de Ogum
No Candomblé da Bahia, Ogum possui sete qualidades (Meje, Beira-Mar, Rompe-Mato, Megê, Xoroquê, Alafegue, Onirê) representando diferentes aspectos e atuações.
- Ogum Mejê (Meje Meje) — É o mais velho de todos, a raiz dos outros, Ogum completo, velho solteirão rabugento. Representa o Ogum primordial, dividido em sete partes após o confronto com Oyá. É a totalidade do orixá
- Ogum Onirê — O Rei de Irê, a qualidade mais guerreira e conquistadora. É o Ogum que tomou a cidade de Irê e ali permaneceu como soberano
- Ogum Xoroquê — Tem fundamento com Exu. É o Ogum das encruzilhadas, guardião dos caminhos e protetor daqueles que viajam. Ogum em sua faceta mais misteriosa e noturna
- Ogum Alagbedé (Lebede) — É o Ogum dos ferreiros, marido de Iemanjá Ogunté e pai de Ogum Akoro. É o mestre da forja, o criador das ferramentas. Representa Ogum em seu aspecto mais artesão e construtor
- Ogum Megê — Ligado ao culto dos mortos (Egungun). É um Ogum mais reservado e sombrio, que guarda a fronteira entre o mundo dos vivos e dos mortos
- Ogum Alafegue (Alagbede) — Ogum em seu aspecto mais ligado à terra e à agricultura
- Ogum Rompe-Mato (Umbanda) — Na Umbanda, é o Ogum das matas, que abre caminhos na floresta com sua espada. Ligado a Oxóssi e à natureza
- Ogum Beira-Mar (Umbanda) — O Ogum que patrulha as praias e a costa, protetor dos pescadores e marinheiros
- Ogum Sete Espadas (Umbanda) — Carrega sete espadas, representando os sete caminhos e as sete batalhas que enfrenta em nome de seus filhos
Oferendas (Adimú) de Ogum
As oferendas a Ogum são realizadas com elementos que remetem à força, ao ferro e à batalha. Suas oferendas são feitas em locais abertos, como florestas ou encruzilhadas, onde seus devotos pedem por proteção e coragem. Ogum está ligado à força e ao trabalho, por isso suas comidas são mais "fortes" e energéticas.
Comidas rituais
- Axoxô (Oxoxô) — milho vermelho cozido, refogado com dendê, cebola e camarão seco
- Feijoada — prato forte e denso, que reflete a energia de Ogum
- Inhame cozido ou assado — alimento básico e primordial
- Feijão-preto — símbolo de força e resistência
- Acarajé — bolinho de feijão-fradinho frito no dendê
Frutas
Ogum aprecia muito a manga, feijão-fradinho, camarão e cerveja clara. Manga, melancia, laranja, caju e mamão.
Bebida
Cerveja clara, vinho tinto, marafo (cachaça branca).
Onde entregar
As oferendas são geralmente entregues às terças-feiras, em campos abertos, encruzilhadas ou trilhas. São as oferendas mais simples dentre os Orixás; elas podem ser entregues em beira de cachoeira, praias, estradas de terra, mato e até mesmo em um jardim.
Velas
Velas azuis ou verdes (no Candomblé) ou vermelhas (na Umbanda).
Elementos de ferro
Ferramentas de ferro como pregos, parafusos, espadas, ferraduras, pedaços de trilhos e facas (rituais específicos).
Restrições
Ogum não suporta quiabo porque foi devido a esse legume que ele perdeu uma batalha para o Orixá que ele mais detesta: Xangô. Ele foi pego em uma armadilha, uma pasta feita com quiabo, preparada por Xangô, na qual ele pisou e escorregou durante a batalha, o que o levou à derrota.
Cantigas (Orin) de Ogum
As cantigas de Ogum são vigorosas, marciais e ritmadas, acompanhadas por toques de atabaque que evocam o som das marteladas na forja e o trote do cavalo de guerra. A dança de Ogum é enérgica e combativa: ele empunha a espada imaginária, golpeia o ar, avança com passos firmes e marca o chão com autoridade.
Cantiga 1: "Ogunhê"
Ogunhê, Ogunhê, Ogum ô
Ogunhê, Ogunhê, Ogum ô
Patacori Ogum, Ogunhê
Ogum Yê, meu Pai, Patacori Ogum
A saudação cantada mais popular, repetida como grito de guerra e invocação do orixá. "Patacori" é uma saudação de respeito e "Ogum Yê" significa "Ogum, eis aqui". Celebra que "Ogum vive", que sua força permanece.
Cantiga 2: "Ogum dê Onirê"
Ogum dê, Ogum dê Onirê
Ogum dê, Ogum dê Onirê
Ogum dê Onirê, Ogum dê
Ogum dê Onirê, Ogum dê
Canto que saúda Ogum como Rei de Irê (Onirê), celebrando sua conquista e soberania. É uma das cantigas mais emblemáticas do xirê.
Cantiga 3: "Mariô"
Mariô, mariô
Ogum é mariô
Mariô, mariô
Ogum é mariô
Referência às folhas de palmeira desfiada (mariwô), a roupa com que Ogum se vestiu ao partir para o exílio em Irê.
Diversas cantigas de rum de Ogum, principalmente as tocadas em Ogèlè (ritmo da Sassain), fazem referência ao fato de Ogum se vestir de mariwò. Os pontos cantados são cânticos sagrados utilizados nos rituais da Umbanda para invocar, saudar, firmar e movimentar a energia das entidades espirituais. Eles funcionam como "chaves vibratórias" que facilitam a conexão entre o plano espiritual e o terreiro.
Nota: As cantigas aqui reproduzidas fazem parte da tradição oral do Candomblé Ketu. A entonação, o ritmo e o contexto ritual são fundamentais para o correto uso litúrgico. Estas letras são oferecidas para estudo e conhecimento da tradição.
Ogum na Relação com Outros Orixás
Ogum e Exu: No Candomblé, Ogum e Exu caminham juntos. Exu abre os caminhos com comunicação e astúcia; Ogum os firma com ação e firmeza. Enquanto Exu negocia com o mundo invisível, Ogum o confronta. Juntos, garantem equilíbrio entre movimento e direção. Mitologicamente, Exu é filho de Iemanjá e irmão de Ogum e Oxóssi.
Ogum e Oxóssi: Oxóssi aprende com Ogum a arte da caça. São irmãos inseparáveis na mitologia: Ogum forjava as armas, Oxóssi as empunhava na floresta. São os dois irmãos caçadores, ligados pelas matas e pela sobrevivência. Indo para a guerra, Ogum encontrou, à margem de um riacho, uma mulher chamada Ojâ, e com ela teve o filho Oxóssi. Em algumas versões, Oxóssi não é apenas irmão, mas filho de Ogum.
Ogum e Xangô: Xangô é seu rival. A disputa entre Ogum (a força bruta) e Xangô (a justiça e a política) é um tema central, frequentemente ligada à disputa por Oyá e ao poder. Ogum teve três mulheres que se tornaram, depois, mulheres de Xangô. A primeira, Iansã, era bela e fascinante; a segunda, Oxum, era coquete e vaidosa; a terceira, Obá, era vigorosa e invencível na luta.
Ogum e Iansã (Oyá): Iansã (Oyá) foi uma de suas esposas. Ogum escondeu a pele de búfalo de Iansã para que ela ficasse permanentemente em forma humana e vivesse com ele. Ela o deixou mais tarde para se unir a Xangô, seu grande rival.
Ogum e Iemanjá: Ogum é filho de Iemanjá e Odudua, e irmão de Xangô, Oxóssi e Exu. Na mitologia iorubá, Ogum é um orixá guerreiro, filho de Iemanjá e Oxalá (as versões variam conforme a tradição).
Ogum e Nanã / Obaluaê: Certos deuses mais antigos que Ogum, ou originários de países vizinhos aos iorubás, não aceitam de bom grado essa primazia assumida por Ogum, o que deu origem a conflitos entre ele e Obaluaê e Nanã Buruku. A rivalidade entre Ogum e Nanã é uma das mais importantes da tradição: Nanã recusa o ferro de Ogum, pois ela é mais antiga que o metal. Por isso, nos rituais de Nanã, não se utiliza faca de ferro — mas sim de bambu ou madeira. Esse conflito reflete a tensão entre o antigo (a lama primordial de Nanã) e o novo (o ferro de Ogum).
Ogum e o Sincretismo
No candomblé e na umbanda, Ogum está associado a São Jorge. Não é incomum que divindades de tradições religiosas africanas sejam representadas por santos católicos, já que no passado o culto aos orixás era proibido no Brasil. Por isso, os negros escravizados passaram a associar muitos dos orixás aos santos católicos, fenômeno cultural conhecido como sincretismo religioso.
O sincretismo religioso no Brasil resultou na associação de Ogum com São Jorge. Esta fusão cultural permitiu que as práticas do Candomblé coexistissem com o catolicismo, muitas vezes disfarçadas sob os rituais e celebrações do santo guerreiro. Tradicionalmente um guerreiro, Ogum é visto como uma poderosa divindade dos trabalhos em metal, semelhante a Ares e Hefesto na mitologia grega e Visvakarma na mitologia hindu.
No Rio de Janeiro e em grande parte do Sudeste, Ogum é São Jorge — o santo guerreiro montado no cavalo branco, com lança e escudo. O dia 23 de abril é feriado no Rio de Janeiro em honra a São Jorge / Ogum. Na Bahia, porém, há tradições que associam Ogum a Santo Antônio — o santo casamenteiro e protetor dos soldados. Em Cuba, na Santería, Ogum é sincretizado com São Pedro.
A Dança de Ogum
A dança de Ogum no Candomblé é uma das mais expressivas e energéticas do xirê. Os movimentos são vigorosos e marciais: o orixá avança com passos decididos, empunha a espada imaginária cortando o ar, defende-se com o escudo e golpeia inimigos invisíveis. Os braços se movem como quem forja o ferro na bigorna — marteladas ritmadas, precisas e potentes.
Envolve movimentos simbólicos, como bater a mão no peito ou elevar objetos de culto, em sinal de entrega e fé. Quando o toque do atabaque acelera para o ritmo de Ogèlè ou Avania, a dança se intensifica: Ogum gira, salta e golpeia com fúria — é o guerreiro no auge da batalha. Quando o ritmo desacelera, Ogum caminha devagar, olhando ao redor, como quem vigia seus territórios e protege seus domínios. A dança de Ogum é sempre em linha reta — nunca ziguezagueia, nunca hesita. Vai para a frente, firme, como a espada que corta.
Ogum na Umbanda
Na Umbanda, Ogum ocupa uma posição de imenso destaque. Na Umbanda e no Candomblé, é reverenciado como o orixá do ferro, das tecnologias, do trabalho e da conquista. Seu domínio sobre as ferramentas e as estradas simboliza a capacidade humana de construir, lutar e evoluir.
Ogum também é conhecido por sua energia vibrante e protetora, que inspira coragem para enfrentar desafios e seguir em frente com fé e disciplina. Na Umbanda, ele também é cultuado de diversas formas como: Beira-Mar, Sete Espadas de Ouro, Ogum de Ronda, etc. Os Caboclos que trabalham na irradiação de Ogum são guerreiros, protetores e descarregadores — atuam fortemente na remoção de energias negativas, abertura de caminhos e proteção espiritual.
Ogunhê! Patacori Ogum!
A saudação mais conhecida: "Ogunhê! Patacori Ogum!" (Ogum vive! Saudamos Ogum!). "Ogum Yê! Ogum Iê!" (Ogum, eis aqui! Ogum, salve!). Essas saudações são entoadas com vigor, com voz firme e passo decidido, em honra ao guerreiro que nunca recua. "Ogum que, tendo água em casa, lava-se com sangue" — verso de oriki que sintetiza a natureza indomável e feroz de Ogum.
Ogum é mais do que orixá da guerra. É o espírito da superação. Na psique, Ogum é aquele que nos chama à responsabilidade de ser quem nós somos, mesmo que para isso seja preciso romper pactos com a sombra da submissão. Ele nos ensina que não basta sentir, é preciso agir. Não basta ter vontade, é preciso disciplina.
Embora não seja um orixá agrícola, Ogum tem uma conexão com o plantio e a colheita, porque foi ele quem fez as primeiras ferramentas utilizadas na agricultura, como a enxada e a foice. Desde então, os seres humanos são muito gratos a esse orixá. Afinal, foi Ogum que compartilhou conosco o dom da siderurgia, além de ensinar as formas de caça e táticas de guerra.
Ogum é a espada que abre caminhos. É o ferro que molda o mundo. É o fogo da forja que transforma o bruto em belo. É o primeiro a chegar, o último a recuar, o que veste folhas de palmeira e parte para a floresta sem olhar para trás. É o guerreiro que, mesmo ferido de orgulho, continua forjando — porque Ogum sabe que a maior batalha não é a que se trava contra o inimigo, mas a que se trava consigo mesmo. Quando os atabaques tocam o Ogèlè e o barracão treme, quando a espada corta o ar e o grito ecoa — é Ogum que chega, abrindo caminho para todos os outros.
Ogunhê, Ogum!