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Odé (Oxóssi)

O Rei Caçador das Matas e da Fartura: Okê Arô!

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Odé (Oxóssi), Orixá da Caça e das Matas

Quem é Odé (Oxóssi)?

Odé, mais conhecido no Candomblé como Oxóssi, é um dos orixás mais populares e queridos das religiões de matriz africana no Brasil. Oxóssi é o orixá da caça, florestas, dos animais, da fartura, do sustento, estando presente nas refeições, pois é quem provê o alimento — a ligeireza, a astúcia, a sabedoria, o jeito ardiloso para capturar a caça. Além disso, é um orixá de contemplação, amante das artes e das coisas belas, sendo o caçador de axé, aquele que busca as coisas boas para um ilê, aquele que caça as boas influências e as energias positivas.

O nome "Odé" tem origem direta na língua iorubá: vem do termo iorubá odẹ, que significa "caçador", um adjetivo, devido ao fato de Oxóssi ser o guardião dos caçadores que caçam para obter seu sustento e o de sua família. Vale destacar que, no Batuque gaúcho, o orixá é chamado tradicionalmente de Odé, enquanto no Candomblé baiano ele é mais conhecido como Oxóssi — mas trata-se, essencialmente, da mesma divindade. Odé é no Batuque o orixá que corresponde a Oxóssi no Candomblé.

Historicamente, na África antiga, Oxóssi era considerado o guardião dos caçadores, pois cabia a eles trazer o sustento para a tribo, e hoje ele é quem protege aquelas pessoas que saem todos os dias para o trabalho, para trazer o sustento. Durante o período da diáspora africana, muitos escravos que cultuavam Oxóssi não sobreviveram aos rigores do tráfico negreiro e do cativeiro, mas, ainda assim, o culto foi preservado no Brasil e em Cuba pelos sacerdotes sobreviventes, e Oxóssi se transformou, no Brasil, num dos orixás mais populares, tanto no candomblé, onde se tornou o rei da nação Ketu, quanto na umbanda, onde é patrono da linha dos caboclos.

Curiosamente, Oxóssi também tem forte ligação com as artes: ele está ligado às artes, presente no ato da pintura de um quadro, na confecção de uma escultura, na composição de uma música, nos passos de uma dança, nas misturas de cores, na escrita de um poema.

Títulos e Realeza

Odé Oxóssi carrega títulos de grande prestígio dentro da mitologia iorubá. A ele são conferidos os títulos de Alakétu, Rei, Senhor de Kêtu, e Oníìlé, o dono da Terra, pois na África cabia ao caçador descobrir o local ideal para instalar uma aldeia, tornando-se assim o primeiro ocupante do lugar, com autoridade sobre os futuros habitantes. Ele também é chamado de Olúaiyé ou Oni Aráaiyé, senhor da humanidade, que garante a fartura para os seus descendentes.

Sua personalidade é marcada pela liberdade e pela vitalidade: a rebeldia de Odé Oxóssi é algo latente na sua história — foi desobedecendo às interdições que ele se tornou orixá. Tal como Xangô, é um orixá avesso à morte, porque é expressão da vida; a ele não importa quanto se viva, desde que se viva intensamente.

Características e Arquétipo

Dia da semana: Quinta-feira (Candomblé) ou Sexta-feira (Batuque). Cores: Verde e azul turquesa, sendo o verde a vida das folhas, o axé das ervas e a sabedoria da floresta, e o azul o equilíbrio entre a natureza e o espírito. Elemento: Terra (florestas e campos). Domínios: Caça, fartura, sustento, prosperidade, artes. Símbolo: Ofá (arco e flecha). Número: 7 e seus múltiplos. Saudação: Okê Arô!

No sincretismo católico, Oxóssi é associado a São Sebastião, celebrado em 20 de janeiro, e na Bahia também a São Jorge, celebrado em 23 de abril. Sua homenagem principal é em 20 de janeiro.

Os Filhos de Odé

Quem tem Oxóssi como orixá de cabeça costuma apresentar traços de personalidade bem marcantes: são pessoas muito agradáveis e comunicativas, estão na maioria das vezes de bom humor e são ótimas companhias, adoram sair à noite, assim como a maioria dos caçadores. Quando em fúria, ferem profundamente com a palavra, e sabem o que desejam e não descansarão enquanto não conseguirem.

Ferramentas e Símbolos Sagrados

As ferramentas de Oxóssi remetem diretamente à sua atividade de caçador e à sua realeza.

Ofá (Arco e Flecha)

O Ofá é seu principal instrumento e símbolo, associado tanto à caça quanto à concentração e precisão. Seu instrumento e símbolo é o arco e flecha em ferro fundido, e seu domínio são as matas. Simbolicamente, no imaginário, Oxóssi aparece com arco e flecha — isso não é só uma arma, é símbolo de concentração: mirar exige silêncio por dentro.

Eyruquerê (Espanta-Moscas)

Sendo ele um rei, carrega o Eyruquerê (espanta-moscas), que só era usado pelos reis africanos, pendurado no saiote.

Outros Símbolos e Adereços

  • Chifres de touro — parte de sua indumentária ritual, leva dois chifres de touro na cintura
  • Chapéu de caçador — enfeitado com penas de avestruz nas cores azul e branco, remetendo à sua ligação com a floresta e a mata
  • Bílalà (chicote de couro) — também parte de sua vestimenta em algumas tradições
  • Coroa real (Adé) — símbolo de sua realeza como Alakétu, rei de Ketu
  • Penas de papagaio e ekodidé — adornam sua coroa real

Sua origem guerreira também vem de sua relação com Ogum, de quem recebeu suas armas de caçador. Oxóssi ensinou a Obá a caçar com lança e Ofá (arco e flecha), e Obá ensinou a arte de lutar a curta distância a Oxóssi, ensinando-lhe a habilidade da espada e do escudo.

Itans (Mitos) de Odé/Oxóssi

Itan 1 — Oxóssi Mata o Pássaro das Feiticeiras

Este é o itan mais célebre do orixá. Todos os anos, para comemorar a colheita dos inhames, o rei de Ifé oferecia aos súditos uma grande festa. Naquele ano, porém, a cerimônia transcorria normalmente, quando um pássaro de grandes asas pousou no telhado do palácio — o pássaro era monstruoso e aterrador. A ave fora enviada pelas feiticeiras, as Iá Mi Oxorongá, ofendidas por não terem sido convidadas.

O rei então convocou seus melhores caçadores para abater o pássaro. Vieram Oxotogum, de Idô, com suas vinte flechas, e Oxotodá, de Ilarê, com suas cinquenta flechas. Nenhum deles teve sucesso — o primeiro, chamado òsótògún, tinha vinte flechas e lançou todas elas, mas nenhuma acertou o grande pássaro; o rei mandou-o embora. Um segundo caçador, òsótogí, apresentou-se com quarenta flechas, e o fato se repetiu; o rei mandou prendê-lo. Osótododá, o caçador de 50 flechas, também não foi feliz.

Foi então chamado um jovem caçador humilde, conhecido por caçar sempre à noite e possuir uma única flecha: bem próximo dali vivia òsótokansósó, um jovem que costumava caçar à noite, antes do sol nascer, e usava apenas uma flecha vermelha. O rei mandou chamá-lo para dar fim ao pássaro. Temendo pela vida do filho — já que o fracasso significava a morte —, sua mãe buscou ajuda espiritual: foi ao babalaô, que recomendou fazer um ebó que agradasse às feiticeiras; ela sacrificou então uma galinha.

No momento decisivo, Oxotocanxoxô tomou seu ofá, seu arco, apontou atentamente e disparou sua única flecha, e matou a terrível ave perniciosa — o sacrifício havia sido aceito. O povo, em festa, passou a chamá-lo pelo nome que ficaria eterno: todos cantaram em louvor a Oxotocanxoxô, e o caçador de Oxô ficou muito popular. Cantavam em sua honra, chamando-o de Oxóssi, que na língua do lugar quer dizer "O Caçador Oxô é Popular". Desde então Oxóssi é o seu nome. Como recompensa, o caçador recebeu honrarias e metade das riquezas do reino, e os caçadores presos foram libertados.

Itan 2 — O Veado que Era Obatalá

Outro itan importante mostra a relação de Oxóssi com a morte e o arrependimento. Conta-se que uma noite Oxóssi encontrou um veado e atirou nele muitas flechas, mas elas não lhe causavam nenhum dano. Oxóssi aproximou-se mais e flechou a cabeça do animal, e nesse momento o veado se iluminou. Para seu espanto, era Obatalá disfarçado, ali, todo flechado por Oxóssi, que não conseguiu caçar nunca mais — profundo foi seu desgosto. Esse itan reforça o caráter de Oxóssi como um orixá sensível, capaz de remorso e de profundo respeito pela vida, mesmo sendo o senhor da caça.

Itan 3 — Oxóssi, Ossain e o Segredo das Folhas

Um terceiro itan liga Oxóssi ao mundo das plantas e da cura, por meio de sua relação com Ossain. Segundo essa tradição, Oxóssi teria sido raptado por Ossain, que o levou para viver com ele na floresta, onde o jovem aprendeu os mistérios das ervas, da cura e da conexão com a natureza — sob essa tutela, pôde desenvolver suas habilidades como caçador, protetor das matas e conhecedor das forças naturais. É por isso que, até hoje, Oxóssi é tão associado ao conhecimento das folhas quanto à caça propriamente dita — sendo, inclusive, uma de suas qualificações ligada diretamente a Ossain: Ọdẹ Onisewe é um Orixá próprio, mas no Candomblé é cultuado como uma qualidade de Oxóssi ligado às folhas e a Òsányìn (Ossanhe), o Orixá das folhas com o qual Oxóssi convive na floresta.

Itan 4 — A Troca de Saberes com Ogum

Existe ainda um itan que fala da parceria fraterna entre Oxóssi e Ogum, mostrando como cada um complementou o outro em suas habilidades de guerra: Oxóssi ensinou a Obá a caçar com lança e Ofá (arco e flecha), e Obá ensinou a arte de lutar a curta distância a Oxóssi, ensinando-lhe a habilidade da espada e do escudo. Essa troca de conhecimentos simboliza a união entre a força bruta da guerra e a inteligência estratégica da caça.

Itan 5 — Oxóssi e a Magia da Imunidade à Morte

Por fim, um itan curioso fala de um poder exclusivo do orixá: Oxóssi é o único Orixá que entra na mata da morte; joga sobre si uns pós-sagrados, avermelhados, chamados Arolé, que passou a ser um de seus dotes, e este pó o torna imune à morte e aos Eguns. Por essa razão, é que se dá para Oxóssi o peito inteiro das aves, como reminiscência desse itan.

Cantigas para Oxóssi

As cantigas (ou "pontos cantados", como são chamados na Umbanda) são parte fundamental do culto a Oxóssi, entoadas em rituais como o xirê no Candomblé. Elas costumam trazer temas ligados à floresta, à caça, à realeza e à força protetora do orixá. Os pontos são cantados em ritmos diferentes de acordo com a linha a que estão ligados, existindo sons que lembram a natureza nos pontos de Oxóssi.

Cantiga 1: "Okê Arô"

Okê Arô, Okê Arô
Odé, Okê Arô
Okê Arô, Okê Arô
Oxóssi, Okê Arô

Cantiga simples e poderosa, que sauda Oxóssi como "o grande da família Arô", linhagem nobre do povo Ketu. É a saudação fundamental do xirê de Oxóssi, entoada para chamar o caçador real para a dança. "Okê, Odè ko ké ma wo!" significa "Salve o Rei que é aquele que fala mais alto!", uma frase que exalta a realeza e a força vocal do orixá durante a caça.

Cantiga 2: "Olowu Kiri Kiri Odé"

Olowu kiri kiri ode
O kiri kiri ode
O kiri kiri a omo-o-de
Olowu kiri kiri ode

Esta cantiga descreve Oxóssi percorrendo as matas em sua caçada. "Olowu kiri" significa "o caçador que anda por toda parte", e "omo-o-de" é "filho do caçador". A melodia evoca o movimento silencioso de Odé pela floresta, sempre atento, sempre em busca do sustento para seu povo. É uma das cantigas mais antigas do candomblé Ketu.

Cantiga 3: "Arolê"

Arolê, O inaio ke o ajo
Arolê, O inaio ke o ajo
Odé, Arolê, O inaio ke o ajo

"Arolê" é uma variação da saudação que também saúda a nobreza de Ketu. "O inaio ke o ajo" é um chamado para que o caçador venha até nós. Esta cantiga invoca a presença de Odé no terreiro, pedindo que ele traga a fartura de suas matas e a proteção de suas flechas.

Nota: As cantigas aqui reproduzidas fazem parte da tradição oral do Candomblé Ketu. A entonação, o ritmo e o contexto ritual são fundamentais para o correto uso litúrgico. Estas letras são oferecidas para estudo e conhecimento da tradição.

Oferendas e Comidas Rituais

As oferendas a Oxóssi devem sempre respeitar o fundamento de cada casa, mas alguns elementos são amplamente reconhecidos.

Para colocar frutas, milho, sementes, grãos e demais alimentos para o rei das matas, deve-se usar, preferencialmente, folhas para forrar o chão, alternativa sustentável ao tradicional alguidar de barro.

  • Milho vermelho — o axoxô é sua comida ritual por excelência, milho vermelho cozido decorado com fatias de coco
  • Frutas variadas — melão, banana, laranja, abacaxi e todas as frutas da estação
  • Mel de cana e vinho branco — entre as preferências do Orixá
  • Cerveja servida em coité e ervas verdes
  • Velas brancas e verdes — nas cores do caçador

Atenção: Por ter derrotado o pássaro de Eléye, Oxóssi não aceita mel de abelhas, pois elas são animais de Ìyámi Eléye. A oferenda para Oxóssi pode ser feita com melaço de cana-de-açúcar.

Toda oferenda deve ser orientada por alguém responsável do Candomblé ou Umbanda, cada Orixá possui suas peculiaridades que devem ser respeitadas e guiadas por quem os conhece após anos de prática na religião. Além disso, ao fazer oferendas na natureza, tome cuidado de não poluir o meio ambiente, pois velas podem provocar incêndios e resíduos de materiais demoram muito tempo para se degradar.

Okê Arô! Salve o Rei da Floresta!

Odé/Oxóssi é, sem dúvida, um dos orixás mais amados e cultuados no Brasil — o rei das matas, o caçador da fartura, o guardião do sustento e o protetor das artes e do conhecimento. Sua trajetória mítica, marcada pela superação, pela generosidade e pelo profundo respeito à vida, faz dele um símbolo de perseverança e conexão com a natureza.

Oxóssi nos ensina que a verdadeira força está na precisão, não na quantidade. Uma única flecha, lançada no momento certo, vale mais que mil atiradas sem foco. Ele é o orixá da estratégia, da paciência e da prosperidade que vem do trabalho bem feito e do respeito à natureza. Seja através do arco e flecha, das folhas de Ossain, das cores verde e azul das matas ou das cantigas entoadas em terreiros por todo o Brasil, Oxóssi continua vivo na fé e na cultura popular, unindo a ancestralidade africana à religiosidade brasileira contemporânea.

Okê Arô, Odé! Okê Arô, Oxóssi!

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