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Logun Edé

O Príncipe dos Orixás, Senhor da Riqueza, da Caça e das Águas Doces: Logun ô Akofá!

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Logun Edé, Orixá da Riqueza e da Caça

Quem é Logun Edé?

Logun Edé (Lógun Èdè), ou Logunedé, é o orixá de origem iorubá, filho de Oxóssi e Oxum, cultuado no Candomblé brasileiro e outras religiões afro-diaspóricas. Ele é considerado um dos mais belos orixás do Candomblé, herdando a beleza como uma das principais características de seus pais.

Logun Edé é "Senhor da Pesca" e orixá dos rios, sendo simultaneamente pescador e caçador. Esse conhecimento e domínio da natureza foram apreendidos com os pais, já que vive seis meses caçando com o pai Oxóssi e seis meses na água doce com a mãe Oxum — o que faz da dinâmica entre os dois universos algo versátil e que completa as habilidades e características deste orixá com o melhor de dois mundos.

Rei de Ilexá, hábil caçador e príncipe soberbo, Logun Edé incorpora os domínios de Oxóssi e Oxum, sendo sua paternidade o ponto central de sua história. Logun Edé é um orixá de contradições; nele, os opostos se entrelaçam, sendo o deus da surpresa e do inesperado. Na Nigéria, a cidade de Logun Edé é chamada de Ilexa, uma das mais ricas e prósperas da África, que atrai pessoas de toda parte do continente para seus festivais anuais.

O Significado do Nome

Seu nome se origina da sua cidade de nascimento, que é justamente Edé, na Nigéria. Na tradição africana, Ólògún Odé pode ser traduzido como "o guerreiro caçador". Especula-se que Logunedé tenha origem na nação Efã, região situada na Nigéria, sendo assim o príncipe desta. Daí que a expressão "filho do príncipe" seja popular dentro de inúmeros terreiros de candomblé.

A Trajetória: Da África ao Brasil

Muitos deuses que na África mantinham a sua autonomia, no Brasil foram reunidos num único orixá e divididos em diversas qualidades. Oxum Yéyé Ipondá e Odé Erinlé são, respectivamente, as qualidades de Oxum e Oxóssi que se consideram os pais de Logun Edé.

No Candomblé, Oxóssi e Oxum são os pais de Logun Edé, um deus único que encontra na sua paternidade uma forma de existir e residir, pois o seu culto mantém-se até hoje e é cada vez mais crescente fora da África. Há também quem diga na África que Logun Edé é, na verdade, uma altiva versão masculina da própria Oxum.

É cultuado na nação Ijexá como sua mãe, mas também nas nações Ketu e Efan, sendo o seu culto muito difundido no Rio de Janeiro. Na tradição da África, acredita-se que Logun Edé seja Ólògún Odé — o guerreiro caçador —, o maior entre todos os caçadores, inclusive pai de Oxóssi. Essa versão africana difere significativamente da versão brasileira, onde ele é apresentado como filho, e não pai, de Oxóssi — revelando as transformações que os mitos sofreram ao cruzar o Atlântico.

Existem templos para Logun Edé em Ilesa, seu lugar de origem, onde em alguns itans é citado como um corajoso e poderoso caçador, cuja coragem é relacionada a de um leopardo.

Características e Arquétipo

Simultaneamente caçador e pescador, Logunedé é o herdeiro dos axés de Oxum e Oxóssi que se fundem e se mesclam como mistério da criação. Trata-se de um orixá que tem a graça, a meiguice e a faceirice de Oxum e a alegria e a expansão de Oxóssi.

Este orixá é jovial, possui grande beleza e tabus, tendo aversão pela cor marrom e vermelha. Diz-se que odeia mentira e confere aos sacerdotes dons psíquicos e êxito na feitiçaria, pois este é um exímio feiticeiro, caçador e orixá encantado.

Logun Edé não é um orixá "metá-metá", ou seja, um orixá de dois sexos, embora divida o tempo com os pais. Logun Edé é um orixá masculino. Ele é a beleza em pessoa, o encanto dos jovens, o namoro, o flerte. Rege a ingenuidade do jovem, a adolescência, a beleza adolescente. O seu encanto está no primeiro beijo, no primeiro abraço, no primeiro carinho. Está presente no brilho do olhar, no perfume das flores e numa paisagem singela. É também o deus da arte, o príncipe do que é belo, das águas doces, da caça, da alegria. Logun Edé está encantado nos pequenos animais, como o coelho, o porquinho-da-índia e os pequenos pássaros, no mato baixo, nas matas pouco densas e principalmente nos rios, sua morada predileta.

Logun Edé está associado à puberdade, ao início da vida adulta, ao despertar da magia e da intuição nos seres humanos.

A Dualidade de Logun Edé

Essa forma de viver e de unir o masculino de Oxóssi com o feminino de Oxum pode ser motivo de confusão e fazer crer que o orixá tem dois sexos. No entanto, Logun Edé é um orixá do sexo masculino e a sua dualidade acontece apenas em nível comportamental.

Sua dualidade se dá em nível comportamental, já que em determinadas ocasiões pode ser doce e benevolente como Oxum e em outras, sério e solitário como Oxóssi. Se Oxum confere a Logunedé axés sobre a sexualidade, a maternidade, a pesca e a prosperidade, Oxóssi lhe passa os axés da fartura, da caça, da habilidade, do conhecimento. Essa característica de unir o feminino de Oxum ao masculino de Oxóssi, muitas vezes o leva a ser representado como uma criança, um menino pequeno ou adolescente, formando mais uma tríade sagrada na história das religiões. Com Logunedé, completa-se o triângulo iorubá pai, mãe e filho que também se repete nas trilogias católica (Pai, Mãe e Espírito Santo), egípcia (Ísis, Osíris e Hórus), hindu e tantas outras.

Ficha Ritual de Logun Edé

Dia da semanaQuinta-feira
CoresAzul-turquesa e amarelo-ouro
ElementosTerra (floresta) e Água (rios e cachoeiras)
DomíniosRiqueza, fartura, beleza, caça e pesca
SímbolosBalança, ofá, abebè e cavalo-marinho
MetalPlatina e ouro
PedrasCoral, topázio e brilhante
Número sagrado12
Saudação"Logun ô akofá!" e "Loci Loci Logunedé!"
SincretismoSão Miguel Arcanjo e Santo Expedito (19 de abril)
Animais sagradosLeopardo, pavão e peixe
Força da NaturezaLua, rio e cachoeira
ProfissõesJornalismo, arquitetura, artes em geral

Cores e seu Simbolismo

As cores de Logun Edé são o azul-turquesa e o amarelo-ouro. O azul-turquesa remete às águas cristalinas dos rios e cachoeiras onde Oxum habita — é a herança materna de Logun Edé, a cor da serenidade, da intuição e da profundidade das águas doces. O amarelo-ouro representa a riqueza, a abundância e o brilho — herança tanto de Oxum (senhora do ouro e da prosperidade) quanto de Oxóssi (o rei das matas que provê a fartura).

A combinação de azul e amarelo nas contas, roupas e paramentos reflete a própria essência de Logun Edé: a fusão harmoniosa entre as águas (azul) e a mata dourada pelo sol (amarelo), entre o universo de sua mãe e o de seu pai.

Suas vestimentas são compostas por panos e peles de animais, normalmente de leopardo, que é o animal associado a ele pela graça, a força e a beleza. Na cabeça, ele leva uma tiara com grandes penas azuis. Seus èèwò (tabus) incluem a cor vermelha e a marrom.

Ferramentas e Símbolos Sagrados

Os símbolos de Logun Edé refletem sua dupla natureza de caçador das matas e pescador dos rios.

Ofá — O Arco e Flecha

As insígnias de Logun Edé são o arco e a flecha de bronze e a espada de bronze. O ofá (arco e flecha) é a herança direta de seu pai Oxóssi — o grande caçador — e simboliza a precisão, a pontaria certeira e a capacidade de atingir objetivos com uma única tentativa. Logun Edé é saudado com a expressão "Logun ô akofá", que significa "Logun, dono do arco e flecha".

Abebè — O Leque-Espelho

Na sua mão direita, ele carrega o espelho, símbolo de Oxum, e na sua mão esquerda, o espanta-moscas, o símbolo de Oxóssi. O abebè representa a herança de sua mãe Oxum — a vaidade, a beleza, a contemplação e a capacidade de ver além das aparências.

Iwọn Ìpele — A Balança de Ouro

"Iwọn ipele" é uma balança de ouro que simboliza o equilíbrio e a harmonia entre os opostos, representando a dualidade de Logun Edé como filho de Oxum e Oxóssi. A balança é talvez o símbolo que melhor sintetiza Logun Edé: o equilíbrio entre a mata e o rio, entre o caçar e o pescar, entre o masculino e o feminino.

Cavalo-Marinho

O cavalo-marinho é um dos símbolos de Logun. Criatura que habita as águas mas cuja forma lembra um animal terrestre, o cavalo-marinho é a expressão perfeita da dualidade terra-água que define o orixá.

Capacete, capanga, chifres de boi, arco e flecha, leque — todos refletem a natureza guerreira e elegante do Príncipe dos Orixás.

Oferendas (Adimú) de Logun Edé

As oferendas para Logunedé são realizadas para honrar sua dualidade e trazer prosperidade, beleza e harmonia. De culto diferenciado e totalmente ligado ao culto a Oxum, é um orixá de extremo bom gosto. Seus objetos devem permanecer junto aos assentos de Oxum e sempre quando agradado devemos agradar sua mãe.

Comidas Rituais

  • Axoxô — milho vermelho cozido enfeitado com fatias de coco, que também pode levar mel ou melado de cana
  • Omolokun — feijão-fradinho cozido com cebola e azeite de oliva, amassado até formar uma pasta
  • Pamonha — rala-se sete espigas de milho verde bem tenras, acrescenta-se coco ralado e açúcar
  • Asosò — milho de galinha (comida seca)

Frutas e Flores

Banana prata, cacau, obi, laranja e outras frutas doces que refletem sua conexão com a natureza e a doçura de sua mãe Oxum. As flores são as mesmas oferecidas a seus pais — flores amarelas (como as de Oxum) e flores do campo (como as de Oxóssi).

Onde Entregar

As oferendas a ele devem ser feitas em locais que tenham seus elementos, como florestas, rios, cachoeiras, jardins ou fontes. Logun Edé pode ser cultuado no rio, porque ele também é um orixá aquático, especificamente de rio.

Velas

Velas amarelas e verdes, para simbolizar sua dualidade entre Oxum e Oxóssi, além de trazer luz e proteção. Também se acendem velas azuis e amarelas.

Restrições (Èèwò)

Carneiro, peixe de pele, a cor vermelha e a marrom, abobrinha, feijão branco, oká bàbà (milho da Guiné) e ògùro (um tipo de vinho de palma). Logun não bebe e quando for fazer alguma coisa para ele deverá ser dado também aos seus pais, Oxum e Oxóssi.

Itans (Mitos) de Logun Edé

Itan 1 — O Nascimento de Logun Edé e a Divisão entre a Mata e o Rio

A história revela que Oxóssi, feliz pelo filho vindouro, declarou a Oxum o seu amor e pediu a ela posse do menino: — Oxum, por amor a você, quero que Logun Edé fique comigo, vou ensiná-lo a caçar. Comigo ele aprenderá os segredos da floresta.

Mas Oxum também amava Logun Edé e, por maior que fosse seu amor por Oxóssi, ela não poderia separar-se de seu filho. Então declarou: — Logun Edé viverá seis meses com sua mãe e seis meses com o seu pai, comerá do peixe e da caça.

Assim sendo, o filho Logun Edé deveria viver seis meses nas águas dos rios com Oxum e seis meses nas matas com seu pai Oxóssi. As principais naturezas de seus domínios foram devidamente repassadas a Logun, que deve ser o rico, poderoso e belo.

Esse itan fundador explica a natureza dual de Logun Edé e o pacto entre seus pais: ele herdaria o melhor dos dois mundos, mas pertenceria inteiramente a nenhum deles. Do rio, aprendeu a doçura, a paciência e a arte da pesca; da mata, aprendeu a coragem, a astúcia e a arte da caça. Assim nasceu o Príncipe dos Orixás — dividido entre dois reinos, mas soberano em ambos.

Itan 2 — Logun Edé, Ogum e Iansã: O Filho de Quatro Orixás

No entanto, existem outras versões acerca de sua filiação. Se na maioria dos mitos, Logunedé surge como filho de Oxum e Oxóssi, em outros, um pouco mais raros, aparece como filho de Ogum e Iansã. Há, ainda, histórias que contam a lenda de Logunedé como filho desses quatro orixás, apresentando-o como nada mais, nada menos que uma representação dos Orixás Gêmeos, Ibeji.

Com Ogum, Logun Edé aprendeu a arte da guerra e da forja e com Iansã, o amor à liberdade. Diz o mito que Logun Edé tinha tudo, menos amor das mulheres, pois mesmo Iansã, quando roubada de Ogum por Xangô, abandona Logun Edé com seu tio, criando assim um profundo antagonismo entre Xangô e Logun Edé, já que por duas vezes Xangô lhe tira a mãe.

Esse itan revela a dor profunda de Logun Edé: o príncipe que possuía tudo — beleza, riqueza, poder — mas que foi privado do amor materno em mais de uma ocasião. A rivalidade entre Logun Edé e Xangô nasce justamente dessa ferida: o raio do rei de Oyó roubou-lhe aquilo que nenhuma flecha poderia recuperar.

Itan 3 — O Caçador com a Coragem de um Leopardo

Nos templos para Logunedé em Ilesa, os itans locais citam-no como um poderoso caçador, cuja coragem está relacionada a um leopardo, sendo casado com três esposas. Essa versão africana difere da brasileira: em Ilesa, Logun Edé não é o menino-príncipe que divide o tempo entre pai e mãe, mas sim um caçador adulto, feroz e destemido, cuja agilidade na floresta lembrava a do leopardo — o mais temido predador das matas africanas.

Mesmo sendo o menor de todos os orixás e até confundido com uma criança pela sua baixa estatura, Logun Edé é um dos mais nobres caçadores do Candomblé. Portanto, é muito corajoso, poderoso e bravo.

Itan 4 — A Transição entre a Água e a Terra

Esses acidentes deixavam Logun Edé muito irritado. Um dia, após ter ficado seis meses vivendo na água, tentou fazer a transição para o reinado de seu pai, mas não conseguiu, pois a terra estava muito escorregadia.

Dessa união nasceu um novo orixá, um orixá príncipe, Logun Edé, que iria consolidar esse "casamento", bem como abrandar os ímpetos de seus pais.

A transição entre os dois mundos nem sempre era fácil para Logun Edé. As passagens entre a água e a terra representam os desafios que todos enfrentamos nas mudanças da vida — os momentos de instabilidade, de escorregar entre um estado e outro, de não pertencer completamente a nenhum lugar. Logun Edé ensina que a transição é parte da existência e que a adaptação é uma virtude, não uma fraqueza.

Itan 5 — Oxum Encontra Água na Floresta Sagrada

Certo dia Ifá estava indo até uma floresta e chamou Oxum para acompanhá-lo. Em determinado ponto do caminho Ifá pediu que Oxum parasse e esperasse por ele naquele local. Ele não queria que ela adentrasse a floresta pois era Igbo Awo, território sagrado e reservado a membros de certas sociedades secretas.

A misteriosa voz pediu a Ifá que trouxesse Oxum até o interior da floresta, o que Ifá fez. Assim que Oxum chegou no interior da floresta, ela olhou em volta e golpeou o chão com sua mão procurando por água, no local onde a água foi encontrada.

Esse itan conecta a origem de Logun Edé ao poder de Oxum de encontrar água até nos lugares mais improváveis — dentro de uma floresta sagrada reservada aos homens. O local onde Oxum fez brotar a água tornou-se sagrado e está ligado ao culto de Logun Edé, o filho que habita tanto a mata quanto o rio.

As Qualidades (Caminhos) de Logun Edé

Logun Edé pertence ao panteão dos caçadores, é único, não tem qualidade ou culto diferenciado, por isso só pode existir um iniciado numa casa de candomblé.

Apesar dessa informação amplamente difundida, algumas tradições reconhecem variações ou caminhos de Logun Edé, ligados às diferentes qualidades de seus pais:

  • Logun Edé de Oxum Ipondá e Erinlé — A qualidade mais difundida no Brasil, com Logun Edé sendo filho de Oxum em sua qualidade Ipondá e de Erinlé (Inlé), o caçador-pescador dos rios. Essa é a raiz Ijexá.
  • Logun Edé de Ogum e Iansã — Qualidade mais rara, onde Logun Edé herda a ferocidade de Ogum e a liberdade de Iansã. É um Logun Edé mais guerreiro e menos doce.
  • Logun Edé Ibeji — Em algumas narrativas, Logun Edé aparece como uma manifestação dos Orixás Gêmeos, reunindo em si as quatro energias parentais (Oxum, Oxóssi, Ogum e Iansã).

Independentemente da qualidade, o princípio que rege Logun Edé é sempre o mesmo: a dualidade, a adaptação e a fusão de opostos.

Cantigas (Orin) de Logun Edé

As cantigas e rituais dedicados ao orixá Lògún enfatizam a importância do arco e flecha na cultura e na proteção espiritual. As letras refletem a conexão com a natureza e a reverência ao caçador como figura central nas tradições afro-brasileiras.

Cantiga 1: "Logun ô, Logun ô, Akofá…"

Logun ô akofá
Logun ô akofá
E akofarê, akofarê ô
Erê uá kofá
In jô, in jô Logun ô
Erê uá kofá

Saudação cantada ao dono do arco e flecha, invocando sua destreza e proteção. "Akofá" significa pegar o arco, e a letra convida o príncipe a mostrar sua destreza.

Cantiga 2: "Ofà ní ó gbé wa kòséni Lógún ó"

Ofà ní ó gbé wa kòséni Lógún ó

"Não crave a sua flecha em ninguém de nós, Logun, não crave sua flecha em ninguém." Canto de súplica e reverência ao poder destruidor do orixá.

Cantiga 3: Oriki do Caçador Rico

Este pai me observa, olha a minha cooperação,
ele foi o primeiro a tornar-se rico com o poder do seu arco e flecha,
pai das florestas e caçador sois vós.

Oriki que exalta Logun Edé como o caçador que primeiro alcançou a riqueza.

Cantiga 4: Acolhimento ao Caçador

Nós vimos o caçador em nossa casa,
o caçador que utiliza as matas.

Canto de acolhimento ao orixá que chega ao barracão.

Nota: As cantigas aqui reproduzidas fazem parte da tradição oral do Candomblé Ketu. A entonação, o ritmo e o contexto ritual são fundamentais para o correto uso litúrgico. Estas letras são oferecidas para estudo e conhecimento da tradição.

Logun Edé na Relação com Outros Orixás

Logun Edé e Oxum (Mãe)

Oxum é sua mãe, a senhora das águas doces que dividiu com ele o domínio sobre os rios e as cachoeiras. De culto diferenciado e totalmente ligado ao culto a Oxum, é um orixá de extremo bom gosto. Seus objetos devem permanecer junto aos assentos de Oxum e sempre quando agradado devemos agradar sua mãe.

Logun Edé e Oxóssi / Erinlé (Pai)

Oxóssi (ou Erinlé, dependendo da tradição) é seu pai, o rei das matas que lhe ensinou a caçar, a sobreviver na floresta e a usar o arco e flecha com precisão mortal. A ligação entre pai e filho é de cumplicidade e aprendizado.

Logun Edé e Ogum

Com Ogum, Logun Edé aprendeu a arte da guerra e da forja e com Iansã, o amor à liberdade. Em algumas versões, Ogum é seu pai ou padrasto, e a relação entre eles é de mestre e aprendiz.

Logun Edé e Xangô

Diz o mito que Logun Edé tinha tudo, menos amor das mulheres, pois mesmo Iansã, quando roubada de Ogum por Xangô, abandona Logun Edé com seu tio, criando assim um profundo antagonismo entre Xangô e Logun Edé, já que por duas vezes Xangô lhe tira a mãe.

Logun Edé e Ewá

Logun Edé nunca se casou, devido a seu caráter infantil e sua companhia predileta é Ewá, que também vive, como ele, solitária e no limite de dois mundos diferentes. Ewá é a companheira de solidão de Logun Edé — ambos vivem entre dois reinos, ambos são reservados e enigmáticos, ambos carregam a beleza da transição.

Logun Edé e os Ibejis

Há, ainda, histórias que contam a lenda de Logunedé como filho de quatro orixás, apresentando-o como nada mais, nada menos que uma representação dos Orixás Gêmeos, Ibeji.

Logun Edé e o Sincretismo

Em algumas tradições, Logunedé é sincretizado com São Miguel Arcanjo, refletindo seu papel de guerreiro e protetor. No sincretismo religioso, ele é equivalente a Santo Expedito e é homenageado no dia 19 de abril.

A associação com São Miguel Arcanjo reflete a imagem do jovem guerreiro celestial, belo e poderoso, que luta contra as forças do mal com espada e escudo — imagem que evoca a natureza combativa e luminosa de Logun Edé. Já a associação com Santo Expedito remete à rapidez, à urgência e à prontidão — qualidades que lembram a velocidade da flecha de Logun e sua capacidade de agir no momento certo.

A Dança de Logun Edé

A dança de Logun Edé é uma das mais expressivas e encantadoras do xirê. Ela mescla movimentos que evocam a caça na floresta com gestos que imitam a pesca no rio, refletindo sua dualidade essencial.

Quando dança como caçador (ligado a Oxóssi), os movimentos são ágeis e precisos: ele corre, salta, puxa o arco imaginário e dispara flechas. Quando dança como pescador (ligado a Oxum), os gestos tornam-se suaves e ondulantes: os braços mergulham na água, as mãos recolhem os peixes, o corpo balança ao ritmo das correntezas.

Suas vestimentas são compostas por panos e peles de animais, normalmente de leopardo, que é o animal associado a ele pela graça, a força e a beleza. Na cabeça, ele leva uma tiara com grandes penas azuis. Além disso, como o guerreiro que é, leva ao corpo uma lança, um arco, uma flecha e um espelho.

A alternância entre os dois estilos de dança é o que torna Logun Edé tão fascinante no barracão: num momento, é o leopardo que espreita a presa; no outro, é a garça que pousa suavemente sobre o rio. Essa transição fluida encanta todos os presentes e traduz, em movimentos, a essência do orixá da dualidade.

Logun Edé na Umbanda

Na Umbanda, Logun Edé é o orixá que representa a riqueza. Seu principal axé está ligado à capacidade estratégica, poder de luta e guerra, capacidade de trazer realizações materiais. Considerado o Orixá do Dinheiro, traz prosperidade aos negócios.

Na Umbanda, Logun Edé é invocado especialmente em trabalhos espirituais voltados à prosperidade, ao sucesso profissional, à abertura de caminhos financeiros e à conquista de objetivos materiais. Sua energia combina a astúcia estratégica do caçador com a doçura negociadora das águas — é o orixá que sabe quando avançar e quando recuar, quando atacar e quando seduzir.

Oriki (Saudação/Invocação)

As saudações mais conhecidas e reverenciadas:

"Logun ô Akofá!" (Logun, dono do arco e flecha!)

"Loci Loci Logunedé!" (Salve, salve Logunedé!)

Suas saudações na tradição africana são "Logun ooooo" e "Olómi oooo". Há também a expressão popular que sintetiza a elegância e a leveza etérea dos devotos desse orixá: "Os filhos de Logun Edé não andam! Pairam sobre o ar!"

Os Filhos de Logun Edé

Os filhos de Logun Edé possuem as características de Oxum, ou seja, narcisismo, vaidade, gosto pelo luxo, sensualidade, beleza, charme, elegância. Têm também características em comum com Oxóssi, ou seja, beleza, vaidade, cautela, objetividade e segurança.

No entanto, há características de Logun Edé que não pertencem nem a Oxum nem a Oxóssi. Na verdade, ele reúne o arquétipo de ambos, mas de forma superficial. A superficialidade é a marca dos filhos de Logun Edé, porque eles, ao contrário dos filhos de Oxóssi e de Oxum, não têm certeza do que são nem do que querem. As qualidades de Oxum e de Oxóssi amenizam-se em Logun Edé, mas, em compensação, os defeitos são exacerbados. Dessa forma, os filhos de Logun Edé são extremamente soberbos, arrogantes e prepotentes. Mas algo não se pode negar: os filhos de Logun Edé são bonitos e possuem olho-de-gato, algo que atrai e repele ao mesmo tempo.

Quando têm consciência de que conseguem controlar os seus defeitos, os filhos de Logun Edé tornam-se pessoas muito agradáveis.

Logun ô Akofá! Loci Loci Logunedé!

Logun Edé é o orixá que nos ensina que a dualidade não é fraqueza, mas riqueza. Que habitar dois mundos não significa não pertencer a nenhum, mas sim possuir a rara habilidade de transitar entre ambos com graça e maestria. Ele é o caçador que também pesca, o guerreiro que também encanta, o príncipe que carrega o arco numa mão e o espelho na outra.

Herdeiro de Oxóssi e Oxum, Logun Edé é o único orixá que tem o poder de se transformar. Sua história nos lembra de que somos todos, de alguma forma, seres de transição — entre o que fomos e o que seremos, entre a mata e o rio, entre a força e a delicadeza. Logun Edé é a prova de que a beleza nasce justamente onde os opostos se encontram.

Quando a flecha corta o ar e o rio reflete o ouro do sol — é Logun Edé que se manifesta, o Príncipe que habita as matas e as águas, o mais belo entre os orixás, o herdeiro de dois reinos, senhor da riqueza que vem de quem sabe caçar e de quem sabe esperar.

Logun ô Akofá! Loci Loci Logunedé!

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