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Exu (Èṣù)

O Grande Orixá da Comunicação, dos Caminhos e do Movimento: Laroyê, Exu!

Exu, Orixá da Comunicação e Mensageiro

Quem é Exu?

Exu (do iorubá Èṣù), também conhecido como Elegbara ou Bará, é uma das divindades mais importantes e mais incompreendidas de todo o panteão afro-brasileiro. No Candomblé, é orixá ligado à comunicação, aos caminhos e aos limiares (passagens) — essencial para o trânsito do axé. Ele é o mensageiro entre o Orum (o plano espiritual) e o Aiyê (o plano material), sendo que toda oferenda, reza ou pedido passa primeiro por ele.

Existe uma confusão muito comum, alimentada por séculos de preconceito religioso, que precisa ser esclarecida: essa associação com o diabo é histórica e colonial, não é teologia africana, já que Exu não é "mal absoluto" — ele lida com consequência e equilíbrio. Essa distorção tem raízes bem documentadas: os primeiros europeus que tiveram contato na África com o culto do orixá Exu atribuíram a essa divindade uma dupla identidade, associando-o tanto ao deus fálico Príapo quanto ao diabo cristão, muito embora não sejam conhecidos mitos de Exu que o identifiquem com essa figura.

Na verdade, Exu talvez seja o mais humano dos Orixás. Um relato tradicional descreve bem essa dualidade: Exu tem o lado de provocar acidentes, brigas e mal-entendidos, mas também é o companheiro oculto das pessoas, revelando-se nem completamente bom, nem completamente mau. Trabalha tanto para o bem como para o mal, sendo o fiel mensageiro daqueles que o enviam.

A Importância Central de Exu nos Rituais

Nenhum ritual de Candomblé acontece sem que Exu seja lembrado primeiro. No Candomblé, Exu é um dos mais importantes Orixás, cabendo a ele ser o primeiro a receber todas as oferendas, as cantigas, as rezas e as saudações. Além disso, dentro do ritual do Candomblé, o Orixá Exu não incorpora em ninguém para fazer consultas como acontece na Umbanda — diferença fundamental entre as duas religiões, já que na Umbanda os Exus são entidades espirituais distintas, chamadas de quiumbas, que não são consideradas Orixás.

Nas casas tradicionais, Elegbará costuma ter um espaço próprio e reservado: em toda casa de candomblé tem um quarto para Elegbará, sempre separado dos outros Orixás, onde ficam todos os assentamentos dos exus da casa e dos filhos de santo que tenham exu assentado.

Itans: Os Mitos de Exu

O Itan de Como Exu Conquistou o Direito de Comer Primeiro

Este é um dos mitos mais conhecidos e explica diretamente a prática ritual mais fundamental do Candomblé. A história começa descrevendo a fome extraordinária de Exu: Exu comia de tudo e sua fome era incontrolável, tendo comido todos os animais da aldeia em que vivia, tanto os de quatro pés quanto os de pena, além de cereais, frutas, inhames e pimentas.

Diante do caos causado por essa fome insaciável, foi necessário buscar uma solução através da adivinhação. Orunmilá obedeceu ao oráculo e ordenou que, doravante, para que Exu não provocasse mais catástrofes, sempre que fizessem oferendas aos orixás deveriam em primeiro lugar servir comida a ele. A conclusão do mito é clara sobre sua importância: para haver paz e tranquilidade entre os homens, é preciso dar de comer a Exu, em primeiro lugar.

O Itan de Exu na Casa de Oxalá

Esse mito mostra a origem da proximidade e do conhecimento profundo que Exu tem sobre a criação dos seres humanos. Diferente dos outros orixás, Exu não possuía posses: Exu não tinha riqueza, não tinha fazenda, não tinha rio, não tinha profissão, nem artes, nem missão, vagabundeando pelo mundo sem paradeiro.

Foi então que ele decidiu visitar Oxalá repetidamente, e ali permaneceu por muito mais tempo do que qualquer outro visitante: enquanto a maioria ficava apenas alguns dias e nada aprendia, Exu ficou na casa de Oxalá dezesseis anos, prestando muita atenção na modelagem e aprendendo como Oxalá fabricava as mãos, os pés, a boca, os olhos e os órgãos genitais dos seres humanos. Sua atitude curiosa, porém discreta, é destacada no mito: Exu não perguntava, Exu observava.

O Itan das 301 Histórias do Mundo

Este itan é essencial para entender a relação entre Exu e o sistema oracular do Ifá. Segundo a tradição, Exu reuniu um número incontável de histórias, resultando em 301 relatos que, de acordo com o sistema de enumeração dos antigos iorubás, representam a totalidade do conhecimento. Realizada essa missão, o orixá mensageiro tinha diante de si todo o conhecimento necessário para o desvendamento dos mistérios sobre a origem e o governo do mundo dos homens e da natureza. Essas histórias, chamadas de odus, tornaram-se a base para a iniciação dos babalaôs na arte divinatória.

O Itan de Exu e a Criação do Mundo (com Olodumare)

Este mito reforça por que Exu deve ser sempre o primeiro a ser homenageado em qualquer ritual. Segundo a história, Olodumare reunira todos os sábios do Orum para ajudá-lo na criação do mundo, mas as ideias de todos traziam algum inconveniente para a finalização de seu propósito. Foi Exu quem resolveu o impasse: ao propor pela primeira vez o sacrifício de pombos e guiar Olodumare por todos os lugares onde deveria verter o sangue, tornou possível a concretização da criação. Como recompensa por esse feito, Olodumare determinou que ele fosse homenageado antes do começo de qualquer empreitada — e essa recompensa deu origem ao rito das casas de santo de o homenagearem antes de todos os outros orixás.

O Itan da Amizade com Orunmilá

Exu e Orunmilá (o orixá da adivinhação, dono do Ifá) são frequentemente descritos como parceiros inseparáveis nos mitos, sendo retratados como amigos tão íntimos, tão íntimos como Exu e Orunmilá. Essa parceria reflete a função de Exu como mensageiro fiel, aquele responsável por levar recados ao Orum e trabalhar em nome de outras divindades.

Nomes e Qualidades de Exu

Exu recebe diversos nomes, de acordo com a função que exerce ou com suas qualidades: Elegbá ou Elegbará, Bará ou Ibará, Alaketu, Agbô, Odara, Akessan, Lalu, Ijelu, Ibarabo, Yangi, Baraketu (guardião das porteiras), Lonan (guardião dos caminhos) e Iná (reverenciado na cerimônia do padê).

Sobre a quantidade exata dessas manifestações, há divergência entre as tradições: diz-se na Bahia que existem vinte e um Exus, segundo uns, e apenas sete, segundo outros. Fora do Brasil, esse Orixá também é conhecido por outros nomes: na África iorubá, Exu também é chamado de Elegbara — "o senhor do poder" — e de Bará, nome pelo qual é cultuado até hoje no batuque do Rio Grande do Sul. Em Cuba, na tradição da Santeria, ele é chamado de Eleguá ou Elegguá.

Ferramentas e Símbolos

O principal instrumento simbólico de Exu é bastante característico e carrega forte significado. Seu símbolo é o ogó, bastão ritual adornado com cabaças, que representa a vitalidade e o poder de transformação — também descrito como um bastão que representa o falo, remetendo à força vital e à virilidade da divindade.

Essa característica está ligada diretamente à sua qualidade de Elegbara, especialmente na tradição Jeje: Elegbara remete à característica de força e virilidade de Exu, sendo representado por um falo (ogó), e os itans dessa cultura falam sobre aquele que é possuidor do poder.

Cores de Exu

As cores tradicionais de Exu são bem definidas e carregam significado simbólico. O Orixá tem como cores principais o preto e o vermelho, tons que apresentam forte associação aos seus elementos: o fogo e a terra.

Comidas e Oferendas

A comida mais emblemática de Exu, e a mais conhecida fora dos terreiros, é o acarajé, cuja origem etimológica é reveladora: na África, é chamado de àkàrà, que significa bola de fogo, enquanto je possui o significado de comer — formando a expressão que, no Brasil, tornou-se "acarajé". O ritual de oferenda é bastante específico: os primeiros sete acarajés são oferecidos imediatamente a Exu na rua no portão da casa.

Outra oferenda fundamental é o padê, preparado especialmente para abrir os trabalhos. Preferencialmente, prepara-se o Padê, mistura feita a partir da farinha de mandioca grossa com azeite de dendê ou pinga, com adicionais como pimentas, cebola ou pedaços de carne, de acordo com a necessidade ou com a qualidade do Exu homenageado.

Quanto aos animais e bebidas oferecidos tradicionalmente: as oferendas são bodes e galos, pretos de preferência, e aguardente, acompanhado de comidas feitas no azeite de dendê. Existe, porém, uma restrição importante quanto ao tipo de óleo utilizado: aconselha-se nunca lhe oferecer certo tipo de azeite, o Adí, por ser extraído do caroço e não da polpa do dendê, podendo portar violência e cólera.

Sobre o local de entrega das oferendas, a tradição é específica: as oferendas são popularmente entregues em encruzilhadas abertas e preferencialmente longe de hospitais, bares, cemitérios e delegacias, sempre mantendo para fora, pois é o campo de atuação deste Orixá. É fundamental lembrar que estas práticas exigem responsabilidade: estes rituais não devem prejudicar ninguém nem mesmo levar o mal ou o conflito ao próximo, e toda oferenda deve ser orientada por alguém responsável do Candomblé, já que cada Orixá possui peculiaridades que devem ser respeitadas e guiadas por quem os conhece após anos de prática na religião.

Cantigas de Exu

As cantigas dedicadas a Exu costumam abrir os rituais, servindo como pedido de licença e saudação antes de qualquer outra celebração.

Cantiga 1: Exu Ajuô Mamã Kê Ô

Exú ajuô mamã kê ôô
Odará, laroê
Exú, ajuô mamã kê ô ô
Odará, laroê, exú egó

Cantiga de abertura do xirê no candomblé Ketu. "Laroyê" é a saudação tradicional a Exu, equivalente a um chamado de respeito. "Odará" significa "bom", "belo", sendo também um dos nomes de Exu, Exu Odara, aquele que faz bem as coisas. A cantiga pede a presença e a boa vontade de Exu para que ele abra os caminhos da festa.

Cantiga 2: Èṣù wa jú wò

Èṣù wa jú wò mọ̀n mọ̀n ki wò Ọdára

Traduzido como "Exu repara, vê, vê louvor, Odara". Uma cantiga que convida Exu a observar, apreciar o louvor que lhe é dedicado e retribuir com sua presença benéfica.

Cantiga 3: Ọdára Ló Ṣòro

Ọdára ló ṣòro, Ọdára ló ṣòro lọ́ọ̀nọ̀n

Traduzida aproximadamente como "Odara trancador, Odara tranca, Rei-da-Estrada". Esta cantiga celebra a força de Exu como guardião e "trancador" dos caminhos, reconhecendo seu poder sobre as encruzilhadas e passagens.

Nota: As cantigas aqui reproduzidas fazem parte da tradição oral do Candomblé Ketu. A entonação, o ritmo e o contexto ritual são fundamentais para o correto uso litúrgico. Estas letras são oferecidas para estudo e conhecimento da tradição.

Saudação a Exu

A saudação mais conhecida e utilizada, tanto no Candomblé quanto na Umbanda, é:

"Laroyê, Exu!" (também grafada como Larôye ou Laroiê)

Existem duas interpretações complementares para essa expressão. A primeira relaciona a saudação ao papel comunicativo do Orixá: sua saudação é "Larôye!", que significa o bem falante e comunicador. Já outra interpretação foca no aspecto de reverência: a expressão pode ser traduzida como "Salve, mensageiro".

Em algumas casas, é comum uma saudação ainda mais reverente, que reconhece uma qualidade específica de Exu como rei: é comum que se saúde Exu acrescentando o termo Kobá, formando a expressão "Koba Laroyê Exu!", entendida como a reverência ao Rei (Kobá) Exu.

Além das palavras, a saudação a Exu também envolve gestos corporais específicos: a mais comum talvez seja a que a pessoa com os dedos entrelaçados e as palmas das mãos apontadas para o chão realiza movimentos circulares, havendo também o gesto de bater as costas das mãos fechadas no chão ou uma contra a outra, três vezes.

O Dia e a Data de Exu

Segunda-feira é considerado o dia de Exu, e neste dia o Orixá deve ser invocado para abrir caminhos e trazer crescimento e expansão na semana que se inicia. Já a celebração anual mais importante ocorre no dia 13 de junho, data em comemoração ao seu nome no sincretismo com Santo Antônio.

Considerações Finais

Exu é, sem exagero, o fundamento sobre o qual todo o sistema ritual do Candomblé se sustenta. Sem ele, nada começa — nem uma oferenda é aceita, nem uma cerimônia se inicia, nem uma palavra alcança o Orum. Ao contrário da imagem distorcida e demonizada que ainda persiste no imaginário popular brasileiro, Exu representa a comunicação, o movimento, a astúcia necessária para a vida e o equilíbrio entre as forças opostas que compõem a existência humana.

Compreender Exu através de seus itans — desde sua fome insaciável até sua paciência de dezesseis anos observando Oxalá — é compreender que ele é, antes de tudo, uma força de transformação: aquela que separa para depois unir, que desafia para depois ensinar, e que exige respeito justamente por ser a porta de entrada para todo o sagrado.

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